segunda-feira, 31 de março de 2014

Revista Época - 50 obras para entender a ditadura


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Livros:
1. Coleção Ditadura (A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada, A ditadura derrotada, A ditadura encurralada), Elio Gaspari. (Intrínseca, 2014)
2. 1964 – O golpe, Flávio Tavares. (L&PM Editores, 2014)
3. Memórias do esquecimento – Os Segredos dos Porões da Ditadura, Flávio Tavares. (L&PM Pocket, 2012)
4. 1968, o Ano que não terminou, Zuenir Ventura. (Objetiva, 2013)
5. A ditadura militar e os golpes dentro do golpe, Carlos Chagas (Record, 2014)
6. Ditadura à brasileira, Marco Antônio Villa. (Leya, 2014)
7. O cofre do Dr. Rui, Tom Cardoso. (Civilização Brasileira, 2011)
8. Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo, Mario Magalhães (Companhia das Letras, 2012)
9. As duas guerras de Vlado Herzog, Audálio Dantas. (Civilização Brasileira, 2012)
10. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à Constituição de 1988 (Zahar), Daniel Aarão Reis. (Editora Zahar, 2014)
11. O Grande irmão, Carlos Fico. (Civilização Brasileira, 2008)
12. Brasil: de Getúlio a Castello, Thomas Skidmore. (Companhia das Letras, 2010)
13. 1964 – História do regime militar brasileiro, Marcos Napolitano (Contexto, 2014)
14. João Goulart – Uma biografia, Jorge Ferreira (Civilização Brasileira, 2011)
15. Visões do golpe – A memória militar sobre 1964, Maria Celina D’ Araújo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro (Ediouro, 2004)
16. Cães de guarda – jornalistas e censores, Beatriz Kushnir (Boitempo Editorial, 2004)
17. O ato e o fato: O som a e a fúria do que se viu no golpe de 1964, Carlos Heitor Cony. (Nova Fronteira, 2014). Lançamento previsto para abril.
18. El caudilho – Leonel Brizola, F. C. Leite Filho. (Aquariana, 2008)
19. Combate nas trevas, Jacob Gorender (Atica, 1999)
20. Mata! – O major Curió e as guerrilhas no Araguaia, Leonencio Nossa. (Companhia das Letras, 2012)
21. História indiscreta da ditadura e da abertura, Ronaldo Costa Couto. (Record, 1998)
22. Propaganda e cinema a serviço golpe 1962/64, Denise Assis. (Mauad, 2001)
23. A caixa-preta do Golpe de 64, Paulo de Mello Bastos. (Família Bastos, 2006)
24. 1968 : O diálogo é a violência - movimento estudantil e ditadura militar no Brasil, Maria Ribeiro do Vale. (Unicamp, 2008)
25. Brasil - 1964 / 1968 - A ditadura já era ditadura, Marcos Silva. (LCTE, 2006)
26. A resistência da mulher à ditadura militar no Brasil, Ana Maria Colling. (Record:Rosa dos Tempos, 1997)
27. Desarquivando a ditadura - memória e justiça no Brasil - 2 Volumes, Cecilia MacDowell Santos, Edson Teles, Janaína de Almeida Teles. (HUCITEC, 2008)
28. História indiscreta da ditadura e da abertura - Brasil: 1964 – 1985, Ronaldo Costa Couto. (Record, 2010)
29. Seu amigo esteve aqui, Cristina Chacel. (Zahar, 2012)
30. Memórias de uma guerra suja, Cláudio Guerra, Marcelo Netto e Rogério Medeiros. (Topbooks, 2012)
31. A política nos quartéis, Maud Chirio. (Zahar, 2012)
32. Dos filhos deste solo: mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar – a responsabilidade do Estado, Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio. (Fundação Perseu Abramo, 2008)
33. Caparaó: a primeira guerrilha contra a ditadura, José Caldas da Costa. (Boitempo Editorial, 2007)
34. Memórias, Gregório Bezerra. (Boitempo Editorial, 2011)
35. 1964: A conquista do Estado, René Armand Dreifuss. (Vozes, 2008)
36. As universidades e o regime militar, Rodrigo Patto Sá Motta. (Zahar, 2014)
Filmes:
37. Pra frente Brasil, Roberto Farias (1982)
38. Jango, Sílvio Tendler (1984) 
39. Nunca fomos tão felizes, Murilo Salles (1984)
40. Lamarca, Sérgio Rezende (1994)
41. O que é isso companheiro?, Bruno Barreto (1997)
42. Ação entre amigos, Beto Brant (1998)
43. Dois córregos, Carlos Reichenbach (1999)
44. Cabra cega, Toni Venturi (2005)
45. Zuzu Angel, Sérgio Rezende (2006)
46. Hércules 56, Sílvio Da-Rin (2006)
47. Batismo de sangue, Helvécio Ratton (2007)
48. Cidadão Boilesen, Chaim Litewskie (2009)
49. Marighella, Retrato Falado do Guerrilheiro - Sílvio Tendler (2010)
50. O dia que durou 21 anos, Camilo Galli Tavares (2011)

A mídia que abraçou a ditadura não faz mea culpa, faz peça publicitária

Site Carta Maior

A oposição feroz entre os grandes grupos de comunicação e a censura na ditadura civil-militar é só a imagem que a grande mídia quer projetar de si mesma.

Caio Hornstein

Não é novidade que a imprensa brasileira teve participação efetiva na articulação civil-militar que derrubou o presidente João Goulart. Com a exceção de alguns poucos veículos de comunicação, como o jornal carioca Última Hora e a TV Excelsior, que se colocaram em defesa da ordem democrática e foram posteriormente perseguidos pelo regime militar, todos os principais grupos de mídia deram apoio explícito à intervenção militar.
 
Passados cinquenta anos do episódio histórico que deu início a uma ditadura que durou mais de 21 anos, os veículos de mídia que apoiaram o golpe têm se visto na obrigação de dar uma explicação que relativize sua participação no episódio histórico. Valendo-se de desavergonhado contorcionismo retórico, os editoriais dos jornalões têm, em linhas gerais, justificado a opção pelo golpismo como fruto de um período conturbado em que extremismos de todos os lados não teriam permitido um posicionamento moderado.
 
A leitura de tais editorais deixa claro que esse mea culpa não representa um genuíno arrependimento por parte dos barões da mídia, que mantém até hoje os mesmos vícios e práticas de 1964; ao contrário, são apenas peças publicitárias que pretendem blindar os veículos de comunicação de possíveis críticas, como se estes tivessem rompido absolutamente de seu passado autoritário.
 
Uma mentira ajuda a fortalecer a imagem redentora que os grupos de comunicação querem projetar de si mesmos: a ideia de que, depois de terem contribuído para o sequestro da ordem democrática, arrependeram-se e passaram a fazer oposição heroica à ditadura. A prova irrefutável dessa postura redentora e do rompimento do casamento entre mídia e militares, defendem, teria sido a implacável censura de que foram vítimas.
 
Mentiras que desmoronam à luz dos fatos. O livro Cães de Guarda – jornalistas e censores, do AI-5 à constituição de 1988, da historiadora Beatriz Kushnir, é fundamental para compreender as relações entre mídia e censura durante a ditadura civil-militar. Contrariando a posição revisionista dos grupos de comunicação, a obra de Kushnir aponta episódios em que houve colaboracionismo explícito entre militares e veículos de comunicação, trazendo à tona o emblemático exemplo da Folha da Tarde, periódico cuja redação foi dominada por policiais. Além disso, Cães de Guarda esmiúça a relação entre censores e jornalistas, indicando uma relação por vezes muito menos tensa do que se supõe.
 
Em entrevista à Carta Maior, Beatriz Kushnir desconstrói o mito de que houve oposição ferrenha entre a censura do regime militar e os grandes grupos de comunicação. Confira.
 
Carta Maior: Os grandes grupos de comunicação no Brasil realmente fizeram um enfrentamento combativo à ditadura militar?
 
Beatriz Kushnir: A cada vez que escuto uma pergunta como esta, eu penso: se houve tanta resistência, por que a ditadura perdurou 21 anos? Creio ser mais que oportuno, nesse momento de ponderações sobre os 50 anos do Golpe, retomar uma ideia apontada, quando dos 30 anos do AI-5, pelo jornalista Jânio de Freitas.
 
Freitas, na época, publicou na Folha de S. Paulo, uma advertência ainda não cumprida por seus pares: "a imprensa, embora uma ou outra discordância eventual, mais do que aceitou o regime: foi uma arma essencial da ditadura. (...) Os arquivos guardam coisas hoje inacreditáveis, pelo teor e pela autoria, já que se tornar herói da antiditadura tem dependido só de se passar por tal". Portanto, traçar os papeis da imprensa no período, é fazer um mergulho profundo nestes acervos. E ao cotejá-los com entrevistas orais, perceber as duas imagens: a que salta das páginas dos jornais, e a construção atual das memórias de si.
 
CM: Quando se fala em censura aos grandes veículos de imprensa durante a ditadura militar, a publicação de versos de Camões no jornal Estado de S. Paulo e de receitas culinárias no Jornal da Tarde em espaços censurados é uma lembrança recorrente. Esse tipo de atitude incomodava efetivamente o regime militar?
 
BK: O jornalista Oliveiros Ferreira, que por décadas trabalhou no Estadão, me contou, em entrevista, que a Redação recebia ligações indagando que a receita de bolo na primeira página do Jornal da Tarde estava errada. O bolo solava. Ou, como sublinhou Coriolano de Loyola Cabral Fagundes, censor desde 1961 e que atuou no Estadão, os poemas de Camões foram ali uma concessão.
 
Certamente a censura federal apostava que o leitor não entenderia o porquê destas estratégias. O ponto fundamental da lógica censória é, como brilhantemente descreveu o jornalista Cláudio Abramo, não se deixar capturar pelo equívoco de que "(...) no Brasil, o Estado desempenha papel de controlador maior das informações. Mas não é só o Estado, é uma conjunção de fatores. O Estado não é capaz de exercer o controle, e sim a classe dominante, os donos. O Estado influi pouco, porque é fraco. Até no caso da censura, ela é dos donos e não do Estado. Não é o governo que manda censurar um artigo, e sim o próprio dono do jornal. Como havia censura prévia durante o regime militar, para muitos jornalistas ingênuos ficou a impressão de que eles e o patrão tinham o mesmo interesse em combater a censura".
 
CM: Uma característica do controle da imprensa no regime militar foi a existência da autocensura em diversas redações. Ou seja, o governo transferia a responsabilidade da censura para os próprios administradores dos veículos de comunicação, que deveriam julgar o que é ou não publicável. Qual o significado dessa medida?
 
BK: A autocensura não foi inventada naquele momento. A autocensura é uma prática constante em qualquer empresa de comunicação. Todo jornalista sabe disto. O jornal, a rádio, a TV são exemplos de empresas, negócios, lucros. Vende-se um serviço de utilidade pública: a notícia. Os governos, quando querem calar as vozes de oposição nos meios de comunicação, soltam verbas publicitárias. Como toda empresa tem um dono, nos meios de comunicação só é publicado o que o patrão acha conveniente.
 
CM: Em seu livro Cães de Guarda, você expõe a trajetória da Folha da Tarde, periódico do grupo Folha que contou com policiais em sua redação e se notabilizou por ocultar e distorcer a morte de militantes políticos. Além de um enfrentamento passivo aos abusos do regime militar, é possível dizer que, em muitas ocasiões, os grandes grupos de mídia foram colaboracionistas?
 
BK: Em vários graus e tonalidades, em momentos diferenciados, as grandes corporações de comunicação apoiaram e pediram o golpe; aproveitaram-se do momento autoritário e repressivo para ampliar seus universos de atuação, diversificando os negócios; no pós-1979, criaram uma visão para si de resistência. A trajetória deste setor, como de diversos outros da sociedade brasileira, demonstra as raízes autoritárias e conservadoras que nos seguram e que estão distantes da imagem idealizada de que somos democratas.

CM:  É correto afirmar que, à exceção de divergências pontuais, os grandes veículos de imprensa estavam, em linhas gerais, satisfeitos com a condução política do governo militar e concordavam sobre a necessidade de repressão após o AI-5?
 
BK: Os dirigentes das empresas brasileiras estavam satisfeitos com o milagre econômico e, os que souberam, aproveitaram muitíssimo daquele momento. Certa vez, ouvi uma explicação que o fim da ditadura estava intimamente ligado à crise do milagre. Não creio que precisamos ser tão simplistas. Mas este é um ponto importante a se considerar.

Especial 50 anos do Golpe - CartaCapital

A grande imprensa apoiou o golpe e a ditadura


Os grandes veículos se passam por adversários da ditadura, mas colaboraram com ela e não tiveram papel relevante para o fim do regime

por Beatriz Kushnir — publicado 31/03/2014 04:54
Desde fins da da década de 1990, parte da historiografia brasileira sublinha que o (equivocado) processo de Anistia cunhou a (errônea) visão de que vivemos envoltos em uma tradição de valores democráticos. A partir das lutas pela Anistia, como sublinha Daniel Aarão Reis, “libera-se” a sociedade brasileira de “repudiar a ditadura, reincorporando sua margem esquerda e reconfortando-se na ideia de que suas opções pela democracia tinham fundas e autênticas raízes históricas”. Nesse momento, plasmou-se a imagem de que a sociedade brasileira viveu a ditadura como um hiato, um instante a ser expurgado. Confrontando-nos à tal memória inventada, há no período republicano longos momentos de exceção – como nos referimos aos regimes ditatoriais.
Se tais premissas correspondessem aos fatos, restaria explicar: por que houve apenas restritos episódios de resistência vinculados igualmente a pequenos grupos? Por que se permitiu aprovar uma Anistia recíproca, que mesmo nestes 50 anos após o golpe civil-militar, ainda é tema espinhoso de revisão?
A luta contra o arbítrio, de forma armada ou não, definitivamente não caiu nas graças do povo deste berço esplêndido. E, certamente, os meios de comunicação de massa – a grande imprensa e posteriormente, a TV – têm um papel preponderante nas escolhas sociais implantadas.
São clássicos os editoriais do Correio da Manhã nas vésperas do 1º de Abril de 1964, clamando por “Basta” e “Fora” a Jango. Igualmente, é emblemática a noção de que este jornal, ao realizar um “mea-culpa” e se colocar em oposição ao novo regime, foi punido com perseguições que levaram a sua falência. Esquecem-se, contudo, os amplos problemas de gerenciamento vividos por Niomar Moniz Sodré.
Ícones de resistência são lembrados, afirmados, expostos e sublinhados maciçamente para ratificar a tradição democrática brasileira, como: a meteorologia para o 14/12/1968, no Jornal do Brasil; as receitas de bolo do Jornal da Tarde; os poemas de Camões no Estadão; os inúmeros jornalistas perseguidos, demitidos, torturados e mortos; etc., que definiriam a grande imprensa brasileira como resistente ao golpe e, posteriormente, ao arbítrio. Mesmo com todo este esforço, o processo ditatorial perdurou por mais de duas décadas.
Meio século depois e com inúmeros textos publicados sobre a mais recente ditadura brasileira, poder-se-ia ressaltar que nunca a grande imprensa brasileira estampou na primeira página dos periódicos um aviso claro afirmando: “Este jornal está sob censura”. As estratégias acima apontadas e outras, que frequentemente voltam à tona para reforçar a ação resistente, contavam com a capacidade do público leitor em decifrar pistas.
O jornalista Oliveiros Ferreira, que por décadas trabalhou no Estadão, narrou as ligações recebidas pela redação indagando que a receita de bolo na primeira página do Jornal da Tarde estava errada. O bolo solava. Ou, como definiu Coriolano de Loyola Cabral Fagundes, censor desde 1961 e que atuou no Estadão, os poemas de Camões foram ali uma concessão. Certamente a censura federal apostava que o leitor não entenderia o seu porquê, ou se tranquilizaria na (efêmera) ilusão que mesmo no arbítrio lhe eram permitidos lampejos de resistência, os quais, efetivamente nada alteravam. Algo semelhante, contudo, não foi autorizado à (antiga) Veja, que, durante a “distensão” do governo Geisel, substitui as matérias censuradas por imagens de diabinhos, já que não se podiam publicar espaços em branco. Advertida, teve que parar, pois certamente o leitor de Veja à época entenderia o recado. Certamente como compreendeu a mensagem da revista quando da morte de Vlado, numa nota pequena de desculpas por não poder nada mais expressar.
Os inúmeros jornalistas perseguidos, demitidos, torturados e mortos sofreram estas horríveis barbáries enquanto atuavam como militantes das esquerdas, em ações armadas ou como simpatizantes, como demonstram os processos que arrolam os seus nomes. Da mesma forma, existiram imposições governamentais de expurgos nas redações. Tais limpezas ocorreram logo depois do golpe e perduraram até e inclusive no governo Geisel, que impunha a bandeira do fim da censura. Muitos jornalistas/militantes poderiam ser citados como vítimas destas ações, já que, como pontuava lúcida e ferinamente Cláudio Abramo, “nas redações não há lugar para lideranças. Os donos dos jornais não sabem lidar com jornalistas influentes que, muitas vezes, se chocam com as diretrizes do comando. O jornalista tem ali uma função, mas ‘ficou forte, eles eliminam’.”
Os meios de comunicação são empresas que buscam o lucro, vendendo a visão particular sobre um fato e, como Abramo por vezes demarcou, um “equívoco que a esquerda geralmente comete é o de que, no Brasil, o Estado desempenha papel de controlador maior das informações. Mas não é só o Estado, é uma conjunção de fatores. O Estado não é capaz de exercer o controle, e sim a classe dominante, os donos. O Estado influi pouco, porque é fraco. Até no caso da censura, ela é dos donos e não do Estado. Não é o governo que manda censurar um artigo, e sim o próprio dono do jornal. Como havia censura prévia durante o regime militar, para muitos jornalistas ingênuos ficou a impressão de que eles e o patrão tinham o mesmo interesse em combater a censura”.
Existiram pouco mais de 220 censores federais, muitos deles com o diploma de jornalista – sendo que o primeiro concurso público para o cargo ocorreu em 1974, quando Geisel prometia o fim da censura. Estas duas centenas de pessoas atuavam reprimindo: cinema, TV, rádio, teatro, jornais, revistas, etc., entre 1964 e 1988, em todo o território nacional. Para que as expectativas governamentais dessem certo, os donos das empresas de comunicação tinham de colaborar – e não resistir.
Inúmeros arquétipos podem corroborar tal ideia, até porque a autocensura não é desconhecida das redações, e não se iniciou no pós-1964 no Brasil. No Jornal do Brasil, por exemplo, editou-se, em 29/12/1969, como me cedeu o seu exemplar o secretário de Redação, José Silveira, uma circular interna de cinco páginas, elaborada pelo diretor do jornal, José Sette Câmara, para o editor chefe, Alberto Dines, denominada “Instruções para o controle de qualidade e problemas políticos”, criada com o objetivo de “instituir na equipe um (...) Controle de Qualidade (...) sob o ponto de vista político”.
Estabelecida dias antes do Decreto-Lei 1.077, de 26/01/1970, que legalizou a censura prévia, e um ano após o AI-5, a diretriz de Sette Câmara pontuava que “não se trata de autocensura, de vez que não há normas governamentais que limitem o exercício da liberdade de expressão, ou que tornem proibitiva a publicação de determinados assuntos. Em teoria há plena liberdade de expressão. Mas na prática o exercício dessa liberdade tem que ser pautado pelo bom senso e pela prudência”, já que “a posição do JB ao proferir que este não é a favor nem contra, (...) não é jornal de situação, nem de oposição. O JB luta pela restauração da plenitude do regime democrático no Brasil, pelo retorno do estado de direito. (...) Enquanto estiver em vigor o regime de exceção, temos que usar todos os nossos recursos de inteligência para defender a linha democrática sem correr os riscos inúteis do desafio quixotesco ao Governo. (…) O JB teve uma parte importante na Revolução de 1964 e continua fiel ao ideário que então pregou. Se alguém mudou foram os líderes da Revolução. [Nesse sentido, o JB deverá] sempre optar pela suspensão de qualquer notícia que possa representar um risco para o jornal. Para bem cumprirmos o nosso maior dever, que é retratar a verdade, é preciso, antes de mais nada, sobreviver”. Sette Câmara termina decretando que, “na dúvida, a decisão deve ser pelo lápis vermelho”.
Em meados da década de 1970, foi a vez da Rede Globo – uma concessão pública – formalmente instituir o “Padrão Globo de Qualidade”, ao contratar José Leite Ottati – ex-funcionário do Departamento de Polícia Federal – para realizar a censura interna e evitar prejuízos advindos da proibição de telenovelas. Segundo Walter Clark, a primeira interdição da censura na Globo ocorreu em 1976, na novela Despedida de casado. Para blindar a emissora, o “Padrão Globo de Qualidade” receberia o auxílio de pesquisas de opinião feitas por Homero Icaza Sanchez – o “Bruxo” –, encarregado de identificar as motivações da audiência.
Definindo toda essa tática, Clark explicou que, “(...) enquanto a Censura agia para subjugar e controlar a arte e a cultura do país, perseguindo a inteligência, nós continuávamos trabalhando na Globo para fazer uma televisão com a melhor qualidade possível.” Organizada a autocensura, o “Padrão Globo de Qualidade” teve acrescidos outros ingredientes para o seu sucesso. Em sintonia com a imagem, divulgada pelo governo autoritário, de um “Brasil Grande”, formulou-se também uma “assessoria militar” ou uma “assessoria especial” composta por Edgardo Manoel Ericsen e pelo coronel Paiva Chaves. Segundo Clark, “ambos foram contratados com a função de fazer a ponte entre a emissora e o regime. Tinham boas relações e podiam quebrar os galhos, quando surgissem problemas na área de segurança”.
Esquema semelhante a este foi adotado pela Editora Abril, exposto em uma correspondência de Waldemar de Souza – funcionário da Abril e conhecido como “professor” –, a Edgardo de Silvio Faria – advogado do grupo e genro do sócio minoritário Gordino Rossi –, na qual comunicava o contato tanto com o chefe do Serviço de Censura em São Paulo – o censor de carreira e jornalista José Vieira Madeira –, como com o diretor do Departamento de Censura de Diversões Públicas – Rogério Nunes – para facilitar a aprovação das revistas e a chegada às bancas sem cortes.
Estes vínculos do “professor” com membros do governo são anteriores a esse período e justificam seu potencial de negociação. Desde novembro de 1971 o relações-públicas do DPF, João Madeira – irmão de José Vieira Madeira –, expediu uma carta ao diretor-geral da Editora Abril na qual ratificava o convite do general Nilo Caneppa, na época diretor do DPF, a Waldemar de Souza para que fosse a Brasília ministrar um curso especial aos censores. Em maio de 1972, o próprio general Caneppa enviou a Vitor Civita, diretor-geral da Abril, uma correspondência de agradecimento pelas palestras sobre censura de filmes, que Waldemar de Souza proferiu na Academia Nacional de Polícia. Para continuar colaborando, no ano seguinte, Souza formulou uma brochura intitulada “Segurança Nacional: o que os cineastas franceses esquerdistas já realizaram em países da América do Sul e pretendem repetir aqui no Brasil”. E, em 1974, com o general Antonio Bandeira no comando do DPF, Waldemar de Souza, em caráter confidencial, expôs o porquê de censurar Kung Fu e sua mensagem que “infiltra a revolta na juventude”.
Por fim, mas não menos importante, há a atuação do Grupo Folha da Manhã, proprietário da Folha de S. Paulo e da Folha da Tarde, entre outros, no período. Em dezessete anos, entre 19/10/1967 e 7/5/1984, o país foi dos “anos de chumbo” ao processo das Diretas Já, e a Folha da Tarde vivenciou uma redação tanto de esquerda engajada – até o assassinato de Marighella –, como, a partir daí, de partidários e colaboradores do autoritarismo.
Durante uma década e meia sob o comando de policiais, o jornal adquiriu um apelido: o de “maior tiragem”, já que muitos dos jornalistas que ali trabalharam eram igualmente “tiras” e exerciam cargos na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. A partir deste perfil de funcionários, a Folha da Tarde carrega a acusação de “legalizar” mortes decorrentes de tortura, se tornando conhecido como o Diário Oficial da Oban.
Isto explica o porquê de os carros do Grupo Folha da Manhã serem incendiados por militantes de esquerda, nos dias 21/9/1971 e 25/10/1971. A ação era uma represália, já que o grupo era acusado de ceder automóveis ao Doi-Codi que, com esse disfarce, montava emboscadas, prendendo ativistas.
Nesse momento de ponderações sobre os 50 anos do golpe, recordo-me que, quando dos 30 anos do AI-5, o jornalista Jânio de Freitas publicou na Folha de S. Paulo uma advertência não cumprida por seus pares, inclusive agora, nas reflexões dos periódicos aos 50 anos do golpe civil-militar de 1964. Corroborando com tudo o que foi exposto aqui, Freitas lembrava em 1998 que “a imprensa, embora uma ou outra discordância eventual, mais do que aceitou o regime: foi uma arma essencial da ditadura. Naqueles tempos, e desde 64, o Jornal do Brasil [...] foi o grande propagandista das políticas do regime, das figuras marcantes do regime, dos êxitos verdadeiros ou falsos do regime.  (...) Os arquivos guardam coisas hoje inacreditáveis, pelo teor e pela autoria, já que se tornar herói antiditadura tem dependido só de se passar por tal”.
O jornalista ao finalizar, adverte, e peço-lhe licença para me utilizar aqui, de suas conclusões. Trocarei 30 por 50 anos, AI-5 por golpe civil-militar de 1964, e o que estiver entre colchetes é de minha autoria. Assim: precisamos aproveitar os 50 anos do golpe civil-militar de 1964 para mostrar mais como foi o regime que [se instaurou a partir dali], eis uma boa iniciativa. Mas não precisava [como fizeram muitas narrativas recentes] reproduzir também os hábitos de deformação costumeiros naqueles tempos.
Beatriz Kushnir é historiadora, doutora em História pela Unicamp, autora, entre outros de, Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 (Boitempo, 2012)

domingo, 30 de março de 2014

Além de apoiar o golpe, mídia foi colaboracionista

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Da Redação, site Viomundo
No debate deste sábado TV Globo: Do golpe de 64 à Censura Hoje a historiadora Beatriz Kushnir, autora do livro Cães de Guarda – Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988, se disse surpresa com a contribuição de um jornalista a um recente caderno da Folha de S. Paulo sobre o golpe de 64.
Em seu artigo, sobre a imprensa paulista, o jornalista oferece um retrato matizado do que, na opinião de Beatriz, foi claríssimo: a mídia não só apoiou o golpe de 64 como, ao longo da ditadura militar, foi colaboracionista. O autor do artigo criticado pela historiadora também diz que a mídia teve papel importante tanto na anistia  quanto na redemocratização, o que ela contesta. Bia faz referência ao livro Mil Dias, que descreve a redefinição do projeto editorial da Folha com objetivos comerciais. Ela relembra Jânio de Freitas: se as pessoas voltassem aos arquivos dos jornais da época do AI-5, o ato mais grotesco da ditadura, que fechou o Congresso, ficariam chocadas com o que se escreveu então.
Sobre os dois principais jornais paulistas, apesar da aparente amnésia, sabemos muito.
Porém, como disse Bia em sua fala, publicar poemas de Camões na primeira página do Estadão e receitas culinárias nas páginas do Jornal da Tarde foram concessões da ditadura, já que o que estava proibido era publicar os jornais com espaços em branco.
O caso da Folha é claríssimo. O jornal apoiou o golpe e a ditadura até tarde. Mudou de posição em busca de vantagens comerciais. Tirou proveito da destruição de concorrentes, como a Última Hora, de Samuel Wainer. Engoliu o Notícias Populares, criado para enfrentar a Última Hora. Quando a TV Excelsior teve a concessão cassada, pelo governo Médici, a família Frias ficou com parte do espólio. Emprestou um jornal à ditadura, a Folha da Tarde. Também emprestou carros de entrega de jornais à Operação Bandeirantes, que operou o maior centro de torturas do Brasil, o DOI-Codi da rua Tutoia. Quando os militares se dividiram, a Folha jogou com a linha mais dura, que não aceitava a abertura “lenta, gradual e restrita”. Em resumo, foi oportunista.
Já a Globo, segundo Beatriz detalha em seu livro, chegou a contratar censores para atuar como seus funcionários, com o objetivo de aperfeiçoar a autocensura e evitar cortes que poderiam causar prejuízos econômicos.
Hoje, porém, o que se vê, segundo a historiadora, é uma tentativa de reescrever a História, destacando o papel “resistente” da mídia que, segundo ela, praticamente não houve.
Jornalistas vítimas da ditadura, acrescenta, foram aqueles que militaram em organizações de esquerda na luta armada e foram presos e mortos.
O evento deste sábado faz parte de uma campanha para levantar fundos para o jornalista Marco Aurélio Mello, processado duas vezes por seu ex-patrão global, uma delas por ter escrito uma peça de ficção.





sábado, 29 de março de 2014

TV Globo: Do Golpe de 64 à Censura hoje


Para ver e ouvir a gravação do debate!


Desculpem a nossa falha - Jornal O Dia, 50 Anos do Golpe (29/03/2014)


FRANCISCO ALVES FILHO
Rio - Os cariocas que foram às bancas na manhã de 31 de março de 1964 se depararam com o título em letras garrafais na primeira página do DIA , ao estilo das manchetes policiais: “Exército e Marinha unidos no mesmo objetivo: disciplina!” O jornal mostrava assim o seu apoio ao golpe militar, que poucas horas depois expulsaria da presidência João Goulart para iniciar um período negro de 21 anos na História do Brasil. Como O DIA , a ampla maioria da imprensa brasileira apoiou a quartelada. “Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade”, defendeu o editorial do ‘Jornal do Brasil’, em 1º de abril. Já o editorialista do ‘Globo’, no dia 2, declarou o Brasil salvo da “comunização” e sugeria aos brasileiros “agradecer aos bravos militares que os protegeram dos inimigos”. No Rio, apenas a ‘Ultima Hora’ defendeu Jango.
Passados 50 anos do golpe, o tom dos jornais ao tratar do tema é justamente o oposto. Desfiam uma série de críticas e denúncias contra a supressão dos direitos civis, a tortura e os assassinatos praticados pelo governo militar. Tudo como se a imprensa nunca tivesse ficado ao lado do regime que se instaurou. Analisar mu­dança tão radical pode ajudar a desmistificar o papel dos meios de comunicação na cobertura política brasileira. “A grande imprensa construiu uma memória para si que não corresponde à realida­de”, define a historiadora Beatriz Kushnir, autora do livro “Cães de Guarda”, sobre o papel do jorna­lismo na ditadura. “As redações aderiram maciçamente ao golpe, pedindo a saída de Jango. Tempos depois, passaram a conviver com a censura, mas muitas empresas jornalísticas continuaram a ter ligação com o governo militar.”


Para justificar a parceria com os golpistas e a oposição às anun­ciadas Reformas de Base, a argu­mentação era de que os jornais traziam impressos em suas pági­nas os clamores de grande parte da sociedade. “A Nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do Governo”, bra­dava o editorial de 1° de abril, do extinto ‘Correio da Manhã’, sob o título “Fora!”. E continuava, como se fosse o porta-voz de todos os brasileiros: “Só há uma coisa a di­zer ao Sr. João Goulart: saia.” Na capital paulista, a imprensa seguia o mesmo padrão. “Magalhães: hie­rarquia e disciplina estão em peri­go”, estampou, na véspera do gol­pe, a Folha de S. Paulo, nas páginas 2 e 3, referindo-se ao discurso do governador mineiro, um dos prin­cipais opositores de Jango.
Os textos do DIA não chega­vam ao nível de histeria de ‘O Globo’, ‘Correio’, ‘Folha’, ‘Estado de S. Paulo’ e ‘JB’, mas gradativa­mente o jornal foi abrindo espaço para matérias a favor dos que pre­tendiam derrubar João Goulart. Apesar disso, ainda manteve co­rajosamente na capa de 1º de abril um recado do presidente que se­ria deposto: “É uma insensatez pretender reprimir pela força as aspirações populares”. A partir daí, passou a endossar a ideia da guerra contra a ‘comunização.’
Enquanto se passava por in­térprete da insatisfação nacional, a imprensa tinha informação para saber que a população não estava contra Jango. Eram duas pesquisas do Ibope. Uma delas, sem contratante identificado, foi realizada entre 9 e 26 de março de 1964, em oito capitais. Uma das questões era sobre a necessida­de da reforma agrária defendida pelo presidente: em todas as cida­des, a maioria dos entrevistados aprovou a medida. A maior se deu no Rio, com índice de 82%. Em resposta a outra pergunta, pes­soas ouvidas em cinco das oito capitais disseram que elegeriam Jango caso ele tentasse a presi­dência em 65.
Essa pesquisa não chegou a ser publicada nos jornais daquele ano. Foi resgatada do esquecimento há pouco por Luiz Antonio Dias, pro­fessor de História da PUC-SP, pres­tes a lançar o livro “O Jornalismo e o Golpe de 1964: 50 Anos Depois”. “Os jornais, na verdade, endossa­vam as ideias de setores minoritá­rios da sociedade, mas poderosos”, analisa Dias. Outro levantamento, feito em São Paulo entre 20 e 30 de março, a pedido da Fecomércio, revelava que 72% dos pesquisados achavam o governo Jango de razo­ável a ótimo. Entre os mais pobres o índice subia para 86%.
O professor acredita, porém, que os integrantes de vários desses veículos de comunicação certamente não imaginavam que João Goulart seria sucedido por um regime tão truculento. “Com a censura e a escalada de arbi­trariedades, muitos jornalistas passaram a enfrentar o governo militar e sofreram consequên­cias trágicas, como foi o caso de Vladimir Herzog (profissional paulista assassinado em 1975, por enforcamento, numa prisão do DOI-CODI, em São Paulo).” A longa temporada de atuação dos censores deixou marcas profun­das. “Aprendemos a ter ódio e nojo da censura e das ideologias pervertidas que tentam enfra­quecer a liberdade de expressão”, acredita Aziz Filho, atual diretor de redação do DIA.
Do apoio ao repúdio à ditadura, a análise da atuação dos jornais nesse período pode render boas lições para quem vê a política através da imprensa. “O que está publicado não é a verdade dos fa­tos, mas apenas uma determina­da visão dos fatos”, explica Beatriz Kushnir. Vinda do passado, a lição que fica para o presente e para o futuro é a de ter leitura crítica so­bre tudo o que os jornais publicam – inclusive essa reportagem que você acaba de ler agora.
Censura bem antes do AI-5
Um erro comum é marcar o início da censura à imprensa apenas em 1968, depois do anúncio do Ato Ins­titucional número 5, que restringiu ainda mais as liberdades no Brasil. Alguns anos antes, vários jornais que se opuseram ao governo militar foram invadidos e tiveram suas ins­talações destruídas. Isso aconteceu com periódicos de médio porte, mas também com grandes veículos de imprensa, como os extintos jornais ‘Ultima Hora’ e ‘Correio da Manhã’, ambos do Rio de Janeiro.
Depois de 68, a censura tornou-se sistemática e em muitas redações os representantes do governo acompanhavam o fechamento dos jornais para determinar o que podia ou não ser publicado. “Lembro de dois co­ronéis fardados que ficavam na reda­ção no papel de censores”, lembra o jornalista Luarlindo Ernesto, do DIA , que na época trabalhava no jornal ‘O Globo’. “Várias vezes chegavam com uma relação de assuntos que não po­deriam ser publicados.”
O teor dos temas proibidos ia desde manifestações de insatisfação política a delitos de vários tipos pra­ticados por membros das Forças Ar­madas – incluindo crimes passionais. Alguns jornalistas que desobedeciam à censura foram detidos e levados para a prisão da Ilha das Flores. De­pois de algum tempo, a ditadura ado­tou o método de enviar às redações ordens escritas, com detalhes sobre o conteúdo recomendado. Eram os chamados “bilhetinhos.” À frente do Jornal do Brasil, Alberto Dines, por exemplo, contou ter recebido 288 ordens desse tipo, de setembro de 1972 a dezembro de 1974.
Em muitas ocasiões, os meios de comunicação tentaram driblar as limitações impostas pela censura. Ao noticiar a publicação do AI-5, por exemplo, o JB aproveitou a coinci­dência de uma data comemorativa para estampar na primeira página: “Ontem foi o Dia dos Cegos.” Em outro espaço, usou a previsão da meteorologia para destilar mais iro­nia: “Tempo negro. Temperatura su­focante. O país está sendo varrido por fortes ventos. Mínima – 5 graus, no Palácio Laranjeiras. Máxima – 37, em Brasília.” Na chamada imprensa alternativa, O Pasquim foi o campeão de desobediência. Ficou famosa a entrevista com Leila Diniz em que os palavrões foram substituídos por as­teriscos e cifrões.
Apesar desse tipo de estratégia, a historiadora Beatriz Kushnir avalia que as empresas jornalísticas não foram tão firmes como deveriam ter sido no repúdio à censura. “Se essa resistência tivesse sido tão gran­de, os 220 censores que tinham a missão de controlar toda a impren­sa brasileira não conseguiriam dar conta das suas tarefas”.
‘Correio’ é exemplo da guinada
Um caso extremo nessa trajetória da imprensa, que passou da defesa do governo militar à oposição ao regime, é o que aconteceu com o extinto jor­nal carioca ‘Correio da Manhã’, cuja primeira página é reproduzida nesta edição. Dois de seus editoriais contra o governo Jango são lembrados até hoje como os principais exemplos de apoio ao golpe.
“Não é tolerável esta situação calamitosa provocada artificialmen­te pelo Governo, que estabeleceu a desordem generalizada (..)”, esbra­vejava o veículo em 31 de março, no texto intitulado ‘Basta!’. No dia 1° de abril, o editorial ‘Fora!’ traçava para Jango o perfil de um inconsequente. “É o maior responsável pela guerra fratricida que se esboça no território nacional”. O golpe foi comemorado nas páginas do ‘Correio’.
Quando, gradativamente, os direitos civis fo­ram sendo retirados, o jornal passou a se opor à ditadura. Por causa disso, foi perseguido, teve a sede atacada a bomba, invadida e interditada. Uma das edições foi confiscada e a proprietária, Niomar Moniz Sodré Bittencourt, ficou presa por mais de dois meses. Diante da asfixia política e financeira, o jornal por onde passa­ram Lima Barreto, Antonio Callado e Carlos Drummond de Andrade foi ar­rendado a um grupo de empreiteiros simpáticos aos militares e tornou-se alinhado com o governo. Acabou fechando seis anos depois.