terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Cães de guarda, a imprensa burguesa e a ditadura militar 

Resenha do livro de Beatriz Kushnir “Cães de Guarda - Jornalistas e Censores do AI-5 à Constituição de 1988” (Editora Boitempo)


AMÉRICO GOMES, DA COMISSÃO DE PRESOS E PERSEGUIDOS POLÍTICOS DA CONVERGÊNCIA SOCIALISTA


• O livro de Beatriz Kushnir, feito a partir da edição de sua tese de doutorado, “Cães de Guarda - Jornalistas e Censores do AI-5 à Constituição de 1988” (Editora Boitempo), é um excelente material para quem quer realmente conhecer a imprensa burguesa e suas relações com o poder.


Ela foca seu trabalho nos grandes meios de comunicação nos tempos de ditadura cívico-militar-imperialista, com destaque para o Grupo Folha e o jornal Folha da Tarde, mas serve para entendermos os dias de hoje. Esta, inclusive, é a principal explicação do porque o livro quase não foi divulgado. Até agora, a grande imprensa ignorou este trabalho.

Beatriz Kushnir é mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e, atualmente, diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, que possui um dos maiores acervos da imprensa alternativa, particularmente no regime militar. Sua tese foi apresentada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Seu livro fala dos jornalistas de formação que fizeram parte do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP); dos policiais que atuaram como jornalistas e trabalharam na grande impresa; dos grandes meios que “acatavam” os bilhetinhos da repressão sobre o que se podia e o que não se podia publicar; dos “quadros de confiança”, jornalistas colaboracionistas que ficaram conhecidos como “gansos”, que cobriam o Deops e não passavam pela “revista”, seguindo direto pela entrada reservada aos policiais; e o papel totalmene colaboracionista com a ditadura que tiveram os donos dos grandes jornais. “Assim como nem todas as redações eram de esquerda, nem todos os jornalistas fizeram do ofício um ato de resistência ao arbítrio”, argumenta Beatriz em seu trabalho.
O ponto alto do livro é a sua pesquisa do jornal Folha da Tarde (FT), do Grupo Folha, de Octavio Frias, dos fins de 1967 a 1984. Jornal que prestou grande serviço à repressão. Considerado o jornal mais sórdido do país[2], era também chamado de “delegacia” ou “orgão oficial da OBAN”.
O Jornal de maior tiragem 
Kushnir narra em sua tese a trajetória da Folha da Tarde. Conta que o jornal já teve uma redação de “esquerda”, mas depois foi o reduto, entre fins de 1969 e 1984, de um grupo de jornalistas colaboracionistas, os "cães de guarda". Com alguns deles tendo cargos na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Por isso o jornal ganhou a alcunha de “jornal de maior tiragem" no Brasil, pela grande presença de 'tiras' na redação.
É verdade que praticamente todos os órgãos de imprensa transmitiam a versão do Estado na luta contra a guerrilha, ocultando a tortura, os assassinatos, os desaparecimentos e as mortes dos oposicionistas. Mas, o caso mais destacado foi, sem duvida nenhuma, foi o da Folha da Tarde.
No livro, encontramos uma declaração de Aton Fon Filho publicada na revista Teoria & Debate que reafirma este caráter do jornal: “a propria Folha da Tarde estava muito submetida à orientação do DOI-CODI, fazendo guerra psicológica e propaganda contra a guerrilha, sem que qualquer ação militar tivesse desenvolvido contra ela. Não que não houvesse vontade de realizá-la. Esta surgia em cada mentira, a cada infâmia, a cada vez que a Folha da Tarde, na condição de porta voz oficioso do DOI-CODI, anunciava como fuga ou morte em combate o que na realidade fora o assassinato de um companheiro”.[3]
O jornal tinha sido entregue a repressão como orgão de propaganda, enquanto papel, tinta e funcionários eram pagos pelo Grupo.[4]Em virtude disso, alguns fatos surpreendentes são relatados no livro como: a pouca importância dada à prisão de Frei Betto, em 11 de novembro de 1969. Surpreende, ainda mais, porque ele havia sido chefe de reportagem deste jornal, e isso nem foi citado. A total omissão da missa ecumênica, realizada na Catedral da Sé alguns dias depois da morte de Vladimir Herzog, assassinado nos porões da OBAN (Operação Bandeirante) em 25 de outubro de 1975. Ou a publicação, em 22 de maio de 1970, sob o título de “Terrorismo é uma farsa, denunciam jovens presos”, do arrependimento de cinco militantes políticos da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), no qual estes reavaliaram sua ação militante. E depois a contratação de dois destes arrependidos pelo jornal: Marcos Vinicius Fernandes dos Santos e Romulo Augusto Romero Fontes.
Mas, a prática mais macabra que se estendeu a outros órgãos de imprensa, e que foi exemplar na FT, foi a de transmitir integralmente a versão do Estado para desaparecimentos e assassinatos de militantes de esquerda que, na verdade, teriam sido mortos sob tortura. Como foi o caso da notícia da morte do guerrilheiro Joaquim Seixas, militante do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), acusado de matar o industrial Henning Boilesen (organizador do caixinha da FIESP para manter a OBAN). Ivan Seixas, seu filho, preso com ele, foi levado para um ‘passeio’ pelos policiais e leu, em uma banca de jornal, a notícia da morte do pai, publicada em manchete pela Folha da Tarde. Quando voltou, viu que Joaquim Seixas estava vivo, mas viria a morrer horas depois. A FT anunciou a sua morte, já planejada pela repressão, em uma clara legalização de mortes em tortura.
O mesmo foi feito com Bacuri, o guerrilheiro Eduardo Leite, que segundo depoimento,em juízo, de Vinicius Caldeira Brandt, chegou a ver a primeira página da Folha da Tarde anunciando a sua fuga, antes de ser assassinado.[5]
A Folha e a ditadura
A Folha de São Paulo, de Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, era, em 1962, antijanguista e, em 1964, apoiou o golpe militar[6]. Depois passou a ajudar os aparatos de repressão, fornecendo transporte e cobertura.
O coronel Erasmo Dias era amigo íntimo de Carlos Caldeira e frequentava as festas da Folha de São Paulo, almoços com Otavio Frias, pai e filho, juntamente com Dom Paulo de Evaristo Arns (este pedindo melhores condições carcerárias para os presos politicos). O que era normal, já que nos almoços de aniversário do jornal, em 1º de julho, além dos Frias, dos coronéis Lepiane e Erasmo Dias, estavam presentes personagens como o governador Paulo Maluf e os delegados Celso Telles e Romeu Tuma. [7]
Claudio Abramo, que assumiu a secretaria geral da Folha em 1967, foi afastado em 1972 e preso em 1975, acusado de subversão. Em 1976, voltou a Folha e retomou a direção do jornal, sendo novamente afastado em setembro de 1977, supostamente por imposição do general Sylvio Frota, substituído definitivamente por Boris Casoy, mais ao gosto do militares. O motivo seria uma crônica de Lourenço Diaféria que criticava a estátua do Duque de Caxias. A pressão de Frota foi contestada pelo genereal Golbery, pois Frota foi deposto de seu cargo de Ministro dias depois do afastamento de Abramo.“Mas se foi o Frota quem pressionou, por que não chamam o Claudio Abramo de volta a direção do jornal?”, afirmou Golbery.[8]
Com isso,“a Folha de São Paulo, transformara-se em porta voz do governo militar e mesmo cúmplice de algumas ações”, como destaca o livro de Kushnir.[9] Com Boris Casoy são tirados todos os nomes dos Frias do expediente, que só vão ser recolocados no jornal em 1984, na época das “Diretas Já”. De acordo com Beatriz, “uma jogada de marketing da Folha”, pois para a maioria das pessoas que continuam lendo a Folha, o jornal saiu de tudo isso como se nada do que aconteceu tivesse a ver com a família Frias, pretendendo, assim, entrar limpa para a história com a redemocrátização do País. Quando, na verdade, Otavio Frias foi um homem de negócios que prosperou em tempos de ditadura.[10]
No livro, é reproduzido parte do jornal clandestino da ALN, “Venceremos”, que anunciava no editorial “Os que mentem ao povo”, o papel da família Frias: “O presidente do Grupo Folha, proprietário do grupo Gazeta e da estação rodoviária, testa de ferro de inímeros grupos americanos da indústria gráfica, Octavio Frias Oliveira, certificou-se de um fato real: há uma guerra e ele é o inimigo”.[11]
A auto censura como justificativa
Octavio Frias advogou também a tese de que “por uma questão de sobrevivência” o Grupo Folha não deveria ter censores e sim fazer autocensura.
A censura prévia, que muitas vezes era feita em Brasília, como no caso dos jornais alternativos Pasquim e Movimento, visava quebrar o jornal. Pois, com isso, o jornal tinha que ser fechado com antecedência, afastando os anunciantes e deixando as notícias ultrapassadas e, de quebra, afastava os censores dos jornais para não serem influenciados pelos redatores.[12]Por isso, a maioria da grande imprensa resolveu adotar a auto-censura. O professor Bernardo Kucinski, citado no livro, lembra: "A maior parte da grande imprensa brasileira aceitou ou se submeteu a esse pacto. Para Médici, era melhor que o próprio jornalista se autocensurasse". E segue, portanto,“adesão a autocensura e identificação plena do proprietários dos jornais com os objetivos da repressão, e portanto um virtual colaboracinismo”[13]
Outros orgãos de imprensa
Mas, não foi somente a Folha que colaborou com a ditadura. O livro aborda também outros orgãos. Patrocinaram e sustentaram o golpe também: os Diários Associados, de Assis Chauteaubriand; o Estado de São Paulo e o Jornal da Tarde dos Mesquitas; a Radio Eldorado; a TN Record; a TV Paulista; o Jornal do Brasil; o Correio do Povo; a Tribuna de Imprensa de Carlos Lacerda; o Noticias Populares de Hebert Levy; e as Organizações Globo de Roberto Marinho.[14]
Em compensação, Castelo Branco permitiu e patrocinou a venda das ações das Organizações Globo à corporação americana Time-Life, por 6 milhões de dólares, para a compra de equipamentos (venda considerada ilegal, pois as leis da época vedavam a estrangeiros participação nas empresas brasileiras de comunicação).[15] Segundo Valter Clark, até 1968, a TV Globo não sofreu nenhuma censura e, depois, “Ele (Dias Gomes) escrevia o que queria, eu colocava no ar o que podia. Não iria colocar meu pescoço em holocausto para ele posar de campeão da liberdade. Contratei o ex-diretor do Departamento de Censura da Guanabara (...) para fazer a censura mais rigorosa que fosse possível. Eu preferia decidir o que fosse ou não para o ar do que ouvir os censores do regime”[16]
No livro “A imprensa e o AI-5”, de Jânio de Freitas, destaca-se a participação do JB na ditadura: “Naqueles tempos, e desde 64, o Jornal do Brasil (...) foi um dos grandes propagandistas da politica do regime, das figuras marcantes do regime, dos êxitos verdadeiros ou falsos do regime (...) Os arquivos guardam coisas hoje inacreditáveis, pelo teor e pela autoria, já que se tornar herói antiditadura tem dependido só de um passar para tal”[17]
Frei Betto critica as notícias de culinária no lugar das matérias censuradas no Jornal da Tarde e no Estado de São Paulo. Para ele, “atenuavam sua cumplicidade com a mentira oficial publicando, nos espaços censurados, receita de bolos ou poemas de Camões. Os acólitos do regime adaptavam-se, substituíam o noticiário cortado, antecipavam-se a tesoura do censor, exercendo sem escrúpulos o aprendizado que faria a escola do jornalismo brasileiro: a autocensura. A insólita lição ensinava que o bom profissional deve alienar-se de suas ideias e convicções para escrever como o patrão escreveria, editar como o governo editaria”[18]
O poder dos meios de comunicação
Beatriz Kushnir incorpora em suas conclusões: “Este quarto pilar, localizado fora do aparelho do Estado, deveria, segunda esta concepção, vigiar os interesses de seus leitores, cidadãos republicanos”.[19]No entanto, Claudio Abramo é mais enfático: “um equívoco que geralmente a esquerda comete é o de que, no Brasil, o Estado desempenha o papel de controlador da informação (...) O Estado não é capaz de exercer o controle, mas sim a classe dominante, os donos. O Estado influi pouco, porque é fraco. Até no caso da censura, ela é dos donos dos jornais. Não é o governo que manda censurar um artigo, e sim o proprio dono do jornal. Como havia censura prévia durante o regime militar, para muitos jornalistas ingênuos ficou a impressão que eles e o patrão tinham o mesmo interesse em combater a censura”.[20]
Assim como Mino Carta afirma: “A imprensa no Brasil é sempre parte do poder, é o proprio poder, mesmo quando esta na oposição. Uma eventual divergência com o governante de plantão não abala este pilar do establishment. (Portanto) a contribuição da imprensa para a manutenção do status quo tem sido magnífica, em certas circunstâncias, vital.”[21]
Por isso, não podemos nos surpreender quando estes mesmos meios de comunicação se colocam contra as greves dos trabalhadores hoje, ou divulgam mentiras sobre militantes de esquerda e suas lutas, como as que foram divulgadas na época da desocupação do Pinheirinho. Afinal, são os mesmos jornais que continuam a sutentar o poder, defender os poderosos e manter o regime contra as ações do movimento.
Neste sentido, o livro de Kushnir cumpre um importantíssimo papel ao colocar luz sobre a atuação da grande imprensa durante a ditadura, e serve de base para entendermos como os meios de comunicação trabalham hoje. Afinal, para a burguesia, o “jornalismo é um negocio”, que para ser feito, na maioria das vezes, necessita das benesses do Estado, e por isso tanto o defende.




[2] Claudio Abramo, A regra do jogo, in Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 230
[3], “A publicidade da Folha”, jul/ago/set de 1997, p 78, in Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 273
[4] Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 274
[5] BNM, n 232, vol 3, p 932-3, Arquivo Edgar Leuenroth, in, Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 303
[6] Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 220
[7] Persival de Souza, Autopsia do Medo, in Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 315
[8] Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 224
[9] Freire, Almada e Ponce in Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 273
[10] Bernardo Kucinski, em Sindrome da antena parabolica, p 66 in, Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 229
[11] Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 333
[12] Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988 p 198
[13] A Sindrome da Antena Parabolica p 61
[14] René Armand Dreifus, 1964: A Conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe, p 233
[15] Moniz Bandeira, O governo João Goulart, as lutas sociais no Brasil, 1961-1964, p
362
[16] Walter Clark, O campeão de audiencia (São Paulo, Best seller, 1991) In Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988 p 189
[17] Janio de Freitas, “A imprensa e o AI-5”, Folha de São Paulo 15/12/1998, p 5
[18] Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 228
[19] Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 349
[20] Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p214
[21] Mino Carta, Posfacio em Lins da Silva, Mil dias, in, Beatriz Kushnir, Caes de Guarda, jornalista e censores do AI 5 a constituição de 1988, p 338

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A Folha tenta se explicar


Obrigada, Emir Sader!

A Folha tenta se explicar

Nos três momentos mais importantes da história brasileira, a mídia estava do lado golpista, do lado das elites, contra o povo e a democracia. Entre eles, o jornal dos Frias, um dos que mais tem a esconder do seu passado e do seu presente. Uma funcionária da empresa há 24 anos, que fez sua carreira totalmente na Folha, que já ocupou vários cargos na direção na mesma, escreveu uma espécie de história ou de justificativa da empresa. O livrinho tem o titulo "Folha explica Folha". Mas poderia também se intitular Folha tenta se explicar, em vão. O artigo é de Emir Sader.


domingo, 20 de maio de 2012

Momento Chic: puro orgulho

No prelo, a 2 edição de minha tese de doutorado. Chega da gráfica nesta segunda e vamos inovar editando também em eBook!

domingo, 13 de maio de 2012

Quando penso que já li tudo, a FSP me surpreende para o mal...


Folha quer investigar quem queimou 

aqueles carros que ela emprestou à OBAN



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por Luiz Carlos Azenha
No Brasil a guerra fria ainda não acabou. O anticomunismo vive. Ser “de esquerda” é considerado pejorativo pelo jornal mais importante do país.
Notaram como Demóstenes Torres nunca foi classificado como “de direita”?
Vejamos as repercussões da escolha dos integrantes da Comissão da Verdade, criada para apurar os crimes da ditadura militar, segundo a Folha.
Página A11: “Amorim não é exatamente querido entre os militares por conta de seu perfil de esquerda e pela pouca familiaridade com os temas da pasta”. Não é preciso dizer que os militares são “de direita”?
Na mesma página: “Em relação aos crimes cometidos pela esquerda, membros da comissão afirmaram que o tema ainda precisa ser discutido internamente”.
Na página A14, alguns militares ouvidos pela Folha (quais, exatamente — os de direita?) desaprovam o nome da advogada Rosa Maria Cardoso da Cunha, que defendeu Dilma Rousseff e Ivan Seixas, dentre muitos outros.
Na página A15, o texto parece trair o medo do próprio jornal: “Sem Fla-Flu”, “sem revanchismos”, “sem as angústias juvenis” — algumas das frases estão entre aspas, revelando qual foi o foco das perguntas dos entrevistadores.
Na última página, reprise: “Membros do grupo revelaram à Folha que também discutirão a possibilidade de investigar crimes cometidos pela esquerda armada”.
Ou seja, em breve a Folha vai pedir para investigar Dilma Rousseff e aqueles que queimaram os veículos que o jornal emprestou à Operação Bandeirantes (que manteve o maior centro de torturas de São Paulo ) para fazer campana.

domingo, 8 de abril de 2012

Desculpe a nossa falha!




Ocorreu ontem (05/03/2012) no estúdio da Pós TV na Casa Fora do Eixo São Paulo uma esclarecedora e importante edição do Desculpe a Nossa Falha, apresentado semanalmente por Lino Bocchini. 
Com o tema da cumplicidade entre a mídia brasileira e a ditaura militar, estiveram presentes também Thaís Barreto, do Núcleo da Memória, a pesquisadora Beatriz Kushnir – autora do livro Cães de Guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 (Boitempo, 2004) – e o jornalista e escritor Alípio Freire, que além de ter sido militante da Ala Vermelha e ter sido capturado pela Operação Bandeirantes em 1969, trabalho na Folha em duas oportunidades: em 1968, depois de 1975 a 1979.

Confira aqui o programa na íntegra: Entrevista

terça-feira, 3 de abril de 2012

Um jornal de rabo preso


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Domingo, 30 de Março de 2014
   |   ISSN 1519-7670 - Ano 17 - nº 791

Por Hermínio Prates

A incoerência da mídia em geral, e especialmente da Folha de S.Paulo, poderia até ser perdoada, se não se repetisse tanto e, como sempre, torcendo os fatos para produzir o suco da enganação. É um espanto! – diria o comediante Agildo Ribeiro revivendo personagem de histriônico passado.
A Folha, todos se lembram, sempre correu atrás do Estado de S.Paulo e quase sempre sem chegar nem perto. Isso se considerarmos a tiragem e a influência de um e de outro. Foi assim durante longo tempo até que surgiu a grande chance no início da década de 1980. O país, depois de penar sob o coturno dos milicos, começava a respirar novos ares. A possibilidade de se eleger um presidente, com voto direto, ganhava força. Atenta aos novos tempos, a direção do jornal assumiu o risco – se é que ainda havia algum naquele momento – e deu asas ao sonho.
A tática era jogar sob o tapete da História o sujo passado do jornal, que recentemente cunhou o neologismo “ditabranda” para definir a sanha assassina dos torturadores do golpe de abril de 1964. E a empresa até emprestava insuspeitos veículos para o transporte de subversivos presos, aqueles malditos difusores do credo vermelho que, portanto, mereciam os espetos do demônio. Quem quiser conhecer parte dos podres do jornal da elite paulista que leia o livro Cães de guarda – Jornalistas e censores do AI-5 à Constituição de 1988, fruto da tese de doutorado de Beatriz Kushnir. O livro, quase censurado e boicotado em todos os cantos, tem incomodado os bacanas da mídia.
Enquanto a Rede Globo teimava em desconhecer e até negar os fatos, a Folha mobilizou máquinas e mentes, sucursais e repórteres, todos jogando no grande time da democracia. A melhor e maior cobertura passou a ser daFolha, que mantinha sempre um olho nas costuras políticas e outro no público que precisava conquistar. Nos idos de 1980 havia o esperto mineirinho Tancredo Neves arrematando as pontas da grande colcha de retalhos de um lado e os homens de mercado (os tais marqueteiros de hoje) conquistando os jovens de outro. Os universitários enchiam a boca quando citavam – e sempre faziam questão de citar – a Folha de S.Paulo.
A Folha se transformou em autêntico JB
Nessa época, o incrédulo escrevinhador que vos toma o tempo dividia as noites entre várias turmas do curso de Jornalismo, ensinando o pouco que sabia para jovens ávidos de aprender os mistérios da profissão. E, como não poderia deixar de ser, de vez em quando analisávamos a cobertura jornalística das Diretas Já. Todos só queriam saber da Folha, era difícil motivar esse ou aquele aluno para os outros jornais. E tome porrete no Globo e na TV dos Marinhos pelos motivos que todos já conhecem...
Mas, infelizmente, as conveniências políticas foram mais fortes e o que era para ser de forma democrática e direta foi parar, de novo, em um suspeitíssimo colégio eleitoral. Ainda bem que entre Tancredo e Maluf não havia possibilidade de erro, principalmente se considerarmos o alcance do longo arco de alianças feito pelo avô do Aécio bom de papo. E, ao longo do complicadíssimo parto cívico-partidário, lá sempre esteve a Folha e seus repórteres. Mas o destino deu uma rasteira no mineirinho e tivemos que engolir o oportunista José Sarney, beneficiário mor da tragédia.
Saldo da longa campanha na área jornalística? A até então paulistana Folha se transformou em autêntico Jornal do Brasil, roubando do informativo da condessa Pereira Carneiro (o JB) a importância, a pose e o poder de influenciar as mais jovens cabecinhas pensantes. Público leitor também foi tirado de O Globo e até do vetustoEstadão.
Descompromisso com a imparcialidade
Qual é hoje a realidade da Folha? Remói com mágoas os oito anos de Lula, teve que engolir a vitória da Dilma, mas ainda se crê com força suficiente para influir no livre pensar de quem vota. Como influir? O jornal se desmoralizou pela teia de mentiras que tentou tecer, as vendas despencam e mais ninguém faz ou renova assinaturas. Tanto que vozes sedutoras tentam, pelo telefone, nos convencer a assinar o calhamaço. Assinar para que, se a internet nos disponibiliza acessos rápidos a essa e a outras fontes? E quem ainda tem estômago, por exemplo, para ler as intrigas de Eliane Cantanhêde, colunista (ou calunista, no dizer de Paulo Henrique Amorim) militante que assina espaço na página de opinião do jornal?
Vida que segue, texto que escoa e o atento leitor pode estar se perguntando sobre as razões da inicial frase da coluna. Sim, há flagrante e constante incoerência na Folha. Ela, que tanto apregoa sua “intransigente defesa da verdade” e que já fez até campanha publicitária tendo como mote a garantia de que “não tem o rabo preso”, sempre se referiu a Augusto Pinochet, Alfredo Stroessner e outros com o título de presidente. Também os generais brasileiros e o marechal que iniciou o ciclo no fatídico 1964 sempre foram chamados de presidentes. Ora, ora, o bom jornalismo não pode bater continência para nenhuma ideologia. Se eles foram presidentes e não ditadores, por que nunca se deu o mesmo tratamento a Fidel Castro? De todos os jornais brasileiros, a Folhasempre foi dos mais críticos ao barbudo ex-fumador de charutos e que, por sua insignificância econômica, nem deveria preocupar o imbatível paraíso democrático de que tanto se orgulham os negocistas da opinião.
Espera aí, meu preclaro patrulhador. Não estou defendendo Alice e nem acusando quem roubou os doces da vovó; estou apenas comparando a política de dois pesos e de não sei quantas medidas adotada pelo pretensioso jornal impresso na terra onde ainda bica o tucano. Foi por ouvir tantas coisas contra e a favor de Cuba que dei um jeito de ir ver de perto o que uns chamavam de “paraíso socialista” e outros de “inferno comunista”. Em pleno desgoverno dos tucanos, juntei as notinhas de real – essa imbatível moeda que FHC garantia ser aceita em qualquer parte do mundo, desde que não se fosse além do Paraguai – e lá fui eu, com o olhar descompromissado da imparcialidade.
Apenas a próxima refeição
O que vi por lá? Nem o de mais, nem o de menos. Vi pobres sim, mas não miseráveis. Visitei lugares paradisíacos, mas exclusivos para os turistas. Com o bloqueio, os recursos minguaram e o turismo passou a ser a principal fonte de dólares. O principal erro é de quem pretende ver Cuba sob a ótica da nossa classe média alta. Para esses, Cuba não está com nada, pouco oferece para se consumir. Interessante seria imaginar aquela ilha sob a ótica de quem ganha quase nada, não tem onde morar, é um sem escola, sem transportes, sem segurança, sem terra, sem emprego, sem saúde, sem comida e até sem esperança. Ah, já sei, no reinado de Fernando II não havia esse tipo de gente aqui, só lá na... na... na França, plagiando antigo personagem daEscolinha do Professor Raimundo.
O que se dizia era que para entrar em um avião em Cuba era preciso tirar passaporte e que o documento custava 500 dólares, dinheiro muito difícil de juntar. É, também ouvi isso por lá. Ainda bem que no Brasil existe liberdade, pois qualquer um pode ir para onde quiser. Claro, apenas uma ínfima minoria, no reinado do tucanato, poderia ter os dólares para exercer o sagrado direito de ir e vir e possíveis 90% estavam mais preocupados com o desemprego, as filas nos hospitais, o assaltante na próxima esquina etc. Isso para não lembrar dos mais de 40 milhões de brasileiros que tinham como horizonte apenas a próxima refeição.
Mas isso é um detalhe, dirá o bem cevado deputado nesse berço da impunidade.

Cães no OperaMundi

  Relações perigosas: a Folha de São Paulo e a ditadura brasileira Antes de se apresentar como um dos símbolos da redemocratização, jornal m...