Relações perigosas: a Folha de São Paulo e a ditadura brasileira
Antes de se apresentar como um dos símbolos da redemocratização, jornal manteve proximidades com regime militar e seus mecanismos de repressão
Estevam SilvaSão Paulo23 de setembro de 2026, às 18:42
Há 55 anos, em meados de setembro de 1971, militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização vinculada à luta armada da ditadura militar, incendiavam veículos pertencentes ao jornal Folha de S. Paulo.
O ataque aos veículos foi uma reação à alegada colaboração do jornal com os órgãos de repressão da ditadura. Conforme apurado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), Octávio Frias de Oliveira, o proprietário do jornal, teria sido um dos financiadores da Operação Bandeirantes (OBAN), um centro de informações mantido pelo regime militar, responsável por capturar, torturar e assassinar os opositores da ditadura.
O relatório da CNV também referenda a alegação de que veículos pertencentes à Folha de S. Paulo eram utilizados para transportar opositores da ditadura militar até as dependências da OBAN ou do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), um dos mais temidos órgãos da repressão.
Octávio Frias de Oliveira foi apontado em diversos relatos como amigo pessoal do delegado Sérgio Fleury, que, ao lado do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, atuava como comandante das operações de repressão, tortura, execução e ocultamento de cadáveres de militantes contra a ditadura.
Além de ser acusado de entregar funcionários opositores do regime aos órgãos da repressão, o dono do Grupo Folha costumava colocar policiais infiltrados na redação dos jornais do seu conglomerado e contratava jornalistas ligados ao regime militar, mantendo uma linha editorial subserviente aos interesses da ditadura.
Publicado por um colegiado de onze especialistas em dezembro de 2014, após três anos de investigações, diligências técnicas e perícias, o relatório da Comissão da Verdade referendou uma alegação feita por um ex-agente da ditadura — o delegado da Polícia Civil Cláudio Guerra, autor do livro “Memórias de uma Guerra Suja” e ex-funcionário do Serviço Nacional de Informações (SNI). Guerra disse ter visto inúmeras vezes o dono da Folha visitando as dependências do DOPS e em companhia do torturador Sérgio Fleury.
Guerra endossou igualmente informações que haviam sido reveladas pela pesquisadora Beatriz Kushnir no livro “Cães de Guarda” e os depoimentos de militantes de esquerda torturados pelo regime, como Alípio Freire e Ivan Seixas, que afirmam ter visto em diversas oportunidades os carros da Folha sendo usados por agentes da repressão.
O apoio da Folha ao regime militar rendeu frutos. Apadrinhada pela ditadura, a empresa recebeu incentivos financeiros e verbas governamentais em publicidade. Os investimentos permitiram a expansão e a renovação tecnológica do conglomerado.
No fim da década de 60, a Folha já era um dos jornais de maior circulação paga do Brasil. Nos anos 70, o jornal não poupava elogios aos ditadores. Um editorial de 1974, por exemplo, afirmava que o general Ernesto Geisel estava “construindo uma grande nação, próspera e coesa, generosa e justa”. Ainda mais constrangedoras eram as matérias enaltecendo a condução do Ministério da Fazenda por Delfim Neto durante o período do “milagre brasileiro”, bem como as tentativas de relativizar o fechamento do Congresso Nacional em 1977.
No começo dos anos 80, a crescente pressão pela redemocratização, a deterioração galopante dos indicadores sociais e o fracasso do projeto econômico apontavam para a inviabilização do governo militar. A Folha resolveu então se adiantar à queda do regime, desvencilhando-se de sua imagem de apoiadora da ditadura e encampando a bandeira das Diretas Já.
Em meio ao movimento pelo retorno das liberdade democráticas, a Folha propunha a unidade das classes dominantes em torno de um novo projeto, igualmente calcado no liberalismo econômico, na defesa do modelo agroexportador e na submissão da agenda nacional ao capital estrangeiro, mas sob a aparência da institucionalidade democrática.
Apesar da nova fachada, o viés antidemocrático da empresa continuou a transparecer em momentos-chave, como ocorreu quando o jornal se opôs ao fim do bipartidarismo, insistindo em um modelo político onde o poder fosse alternado entre a ARENA e MDB. A Folha também criticou fortemente a Constituição de 1988, por considerar que os novos direitos assegurados pela Carta Magna conduziriam o país “ao atraso econômico, por defender a autarquização e o estatismo”.
Consagrada como jornal de maior circulação do Brasil, a Folha, vez ou outra, segue revelando traquejos reacionários, ainda que disfarçados sob o véu do discurso institucional de defesa da “imparcialidade”, da “pluralidade” e do “apartidarismo”. Em 2009, por exemplo, o jornal chegou a publicar um editorial onde classificou o regime militar como uma “ditabranda”. No mesmo ano, a Folha publicou em primeira página uma ficha policial falsa de Dilma Rousseff.
Em 2014, por ocasião da rememoração dos 50 anos do golpe de 1964, a Folha publicou editorial admitindo que seu apoio à ruptura institucional e ao regime autoritário fora um erro. A complacência do jornal diante das novas ameaças que pairam sobre a democracia brasileira desde a ascensão mundial da extrema direita e do bolsonarismo, no entanto, evidenciam que o arrependimento parece ter sido meramente uma operação de limpeza de imagem.






