sábado, 29 de março de 2014

Desculpem a nossa falha - Jornal O Dia, 50 Anos do Golpe (29/03/2014)


FRANCISCO ALVES FILHO
Rio - Os cariocas que foram às bancas na manhã de 31 de março de 1964 se depararam com o título em letras garrafais na primeira página do DIA , ao estilo das manchetes policiais: “Exército e Marinha unidos no mesmo objetivo: disciplina!” O jornal mostrava assim o seu apoio ao golpe militar, que poucas horas depois expulsaria da presidência João Goulart para iniciar um período negro de 21 anos na História do Brasil. Como O DIA , a ampla maioria da imprensa brasileira apoiou a quartelada. “Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade”, defendeu o editorial do ‘Jornal do Brasil’, em 1º de abril. Já o editorialista do ‘Globo’, no dia 2, declarou o Brasil salvo da “comunização” e sugeria aos brasileiros “agradecer aos bravos militares que os protegeram dos inimigos”. No Rio, apenas a ‘Ultima Hora’ defendeu Jango.
Passados 50 anos do golpe, o tom dos jornais ao tratar do tema é justamente o oposto. Desfiam uma série de críticas e denúncias contra a supressão dos direitos civis, a tortura e os assassinatos praticados pelo governo militar. Tudo como se a imprensa nunca tivesse ficado ao lado do regime que se instaurou. Analisar mu­dança tão radical pode ajudar a desmistificar o papel dos meios de comunicação na cobertura política brasileira. “A grande imprensa construiu uma memória para si que não corresponde à realida­de”, define a historiadora Beatriz Kushnir, autora do livro “Cães de Guarda”, sobre o papel do jorna­lismo na ditadura. “As redações aderiram maciçamente ao golpe, pedindo a saída de Jango. Tempos depois, passaram a conviver com a censura, mas muitas empresas jornalísticas continuaram a ter ligação com o governo militar.”


Para justificar a parceria com os golpistas e a oposição às anun­ciadas Reformas de Base, a argu­mentação era de que os jornais traziam impressos em suas pági­nas os clamores de grande parte da sociedade. “A Nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do Governo”, bra­dava o editorial de 1° de abril, do extinto ‘Correio da Manhã’, sob o título “Fora!”. E continuava, como se fosse o porta-voz de todos os brasileiros: “Só há uma coisa a di­zer ao Sr. João Goulart: saia.” Na capital paulista, a imprensa seguia o mesmo padrão. “Magalhães: hie­rarquia e disciplina estão em peri­go”, estampou, na véspera do gol­pe, a Folha de S. Paulo, nas páginas 2 e 3, referindo-se ao discurso do governador mineiro, um dos prin­cipais opositores de Jango.
Os textos do DIA não chega­vam ao nível de histeria de ‘O Globo’, ‘Correio’, ‘Folha’, ‘Estado de S. Paulo’ e ‘JB’, mas gradativa­mente o jornal foi abrindo espaço para matérias a favor dos que pre­tendiam derrubar João Goulart. Apesar disso, ainda manteve co­rajosamente na capa de 1º de abril um recado do presidente que se­ria deposto: “É uma insensatez pretender reprimir pela força as aspirações populares”. A partir daí, passou a endossar a ideia da guerra contra a ‘comunização.’
Enquanto se passava por in­térprete da insatisfação nacional, a imprensa tinha informação para saber que a população não estava contra Jango. Eram duas pesquisas do Ibope. Uma delas, sem contratante identificado, foi realizada entre 9 e 26 de março de 1964, em oito capitais. Uma das questões era sobre a necessida­de da reforma agrária defendida pelo presidente: em todas as cida­des, a maioria dos entrevistados aprovou a medida. A maior se deu no Rio, com índice de 82%. Em resposta a outra pergunta, pes­soas ouvidas em cinco das oito capitais disseram que elegeriam Jango caso ele tentasse a presi­dência em 65.
Essa pesquisa não chegou a ser publicada nos jornais daquele ano. Foi resgatada do esquecimento há pouco por Luiz Antonio Dias, pro­fessor de História da PUC-SP, pres­tes a lançar o livro “O Jornalismo e o Golpe de 1964: 50 Anos Depois”. “Os jornais, na verdade, endossa­vam as ideias de setores minoritá­rios da sociedade, mas poderosos”, analisa Dias. Outro levantamento, feito em São Paulo entre 20 e 30 de março, a pedido da Fecomércio, revelava que 72% dos pesquisados achavam o governo Jango de razo­ável a ótimo. Entre os mais pobres o índice subia para 86%.
O professor acredita, porém, que os integrantes de vários desses veículos de comunicação certamente não imaginavam que João Goulart seria sucedido por um regime tão truculento. “Com a censura e a escalada de arbi­trariedades, muitos jornalistas passaram a enfrentar o governo militar e sofreram consequên­cias trágicas, como foi o caso de Vladimir Herzog (profissional paulista assassinado em 1975, por enforcamento, numa prisão do DOI-CODI, em São Paulo).” A longa temporada de atuação dos censores deixou marcas profun­das. “Aprendemos a ter ódio e nojo da censura e das ideologias pervertidas que tentam enfra­quecer a liberdade de expressão”, acredita Aziz Filho, atual diretor de redação do DIA.
Do apoio ao repúdio à ditadura, a análise da atuação dos jornais nesse período pode render boas lições para quem vê a política através da imprensa. “O que está publicado não é a verdade dos fa­tos, mas apenas uma determina­da visão dos fatos”, explica Beatriz Kushnir. Vinda do passado, a lição que fica para o presente e para o futuro é a de ter leitura crítica so­bre tudo o que os jornais publicam – inclusive essa reportagem que você acaba de ler agora.
Censura bem antes do AI-5
Um erro comum é marcar o início da censura à imprensa apenas em 1968, depois do anúncio do Ato Ins­titucional número 5, que restringiu ainda mais as liberdades no Brasil. Alguns anos antes, vários jornais que se opuseram ao governo militar foram invadidos e tiveram suas ins­talações destruídas. Isso aconteceu com periódicos de médio porte, mas também com grandes veículos de imprensa, como os extintos jornais ‘Ultima Hora’ e ‘Correio da Manhã’, ambos do Rio de Janeiro.
Depois de 68, a censura tornou-se sistemática e em muitas redações os representantes do governo acompanhavam o fechamento dos jornais para determinar o que podia ou não ser publicado. “Lembro de dois co­ronéis fardados que ficavam na reda­ção no papel de censores”, lembra o jornalista Luarlindo Ernesto, do DIA , que na época trabalhava no jornal ‘O Globo’. “Várias vezes chegavam com uma relação de assuntos que não po­deriam ser publicados.”
O teor dos temas proibidos ia desde manifestações de insatisfação política a delitos de vários tipos pra­ticados por membros das Forças Ar­madas – incluindo crimes passionais. Alguns jornalistas que desobedeciam à censura foram detidos e levados para a prisão da Ilha das Flores. De­pois de algum tempo, a ditadura ado­tou o método de enviar às redações ordens escritas, com detalhes sobre o conteúdo recomendado. Eram os chamados “bilhetinhos.” À frente do Jornal do Brasil, Alberto Dines, por exemplo, contou ter recebido 288 ordens desse tipo, de setembro de 1972 a dezembro de 1974.
Em muitas ocasiões, os meios de comunicação tentaram driblar as limitações impostas pela censura. Ao noticiar a publicação do AI-5, por exemplo, o JB aproveitou a coinci­dência de uma data comemorativa para estampar na primeira página: “Ontem foi o Dia dos Cegos.” Em outro espaço, usou a previsão da meteorologia para destilar mais iro­nia: “Tempo negro. Temperatura su­focante. O país está sendo varrido por fortes ventos. Mínima – 5 graus, no Palácio Laranjeiras. Máxima – 37, em Brasília.” Na chamada imprensa alternativa, O Pasquim foi o campeão de desobediência. Ficou famosa a entrevista com Leila Diniz em que os palavrões foram substituídos por as­teriscos e cifrões.
Apesar desse tipo de estratégia, a historiadora Beatriz Kushnir avalia que as empresas jornalísticas não foram tão firmes como deveriam ter sido no repúdio à censura. “Se essa resistência tivesse sido tão gran­de, os 220 censores que tinham a missão de controlar toda a impren­sa brasileira não conseguiriam dar conta das suas tarefas”.
‘Correio’ é exemplo da guinada
Um caso extremo nessa trajetória da imprensa, que passou da defesa do governo militar à oposição ao regime, é o que aconteceu com o extinto jor­nal carioca ‘Correio da Manhã’, cuja primeira página é reproduzida nesta edição. Dois de seus editoriais contra o governo Jango são lembrados até hoje como os principais exemplos de apoio ao golpe.
“Não é tolerável esta situação calamitosa provocada artificialmen­te pelo Governo, que estabeleceu a desordem generalizada (..)”, esbra­vejava o veículo em 31 de março, no texto intitulado ‘Basta!’. No dia 1° de abril, o editorial ‘Fora!’ traçava para Jango o perfil de um inconsequente. “É o maior responsável pela guerra fratricida que se esboça no território nacional”. O golpe foi comemorado nas páginas do ‘Correio’.
Quando, gradativamente, os direitos civis fo­ram sendo retirados, o jornal passou a se opor à ditadura. Por causa disso, foi perseguido, teve a sede atacada a bomba, invadida e interditada. Uma das edições foi confiscada e a proprietária, Niomar Moniz Sodré Bittencourt, ficou presa por mais de dois meses. Diante da asfixia política e financeira, o jornal por onde passa­ram Lima Barreto, Antonio Callado e Carlos Drummond de Andrade foi ar­rendado a um grupo de empreiteiros simpáticos aos militares e tornou-se alinhado com o governo. Acabou fechando seis anos depois.

A influência da mídia no período da ditadura

Em 1964, a democracia brasileira foi interrompida por um golpe de estado que contou com o apoio quase total da mídia. Após a derrubada do governo de João Goulart e com o estabelecimento da ditadura, censores passaram a controlar o que era noticiado na imprensa e a censurar programas de entretenimento. O Ver TV desta semana discute o papel da televisão no golpe de 64 e sua atuação durante os vinte e um anos de ditadura.

Participam do programa a historiadora Beatriz Kushnir, diretora geral do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro e autora do livro Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à constituição de 88, que mostra a ação da censura, as motivações, os temas censurados e a pressão de segmentos da sociedade contra a censura; o jornalista Álvaro de Moya, ex-diretor da TV Excelsior, emissora fechada pelo governo durante o regime militar; e a professora de Sociologia da UNESP Anita Simis, autora do livro Estado e Cinema no Brasil, um estudo dos filmes produzidos e exibidos no cinema e na televisão durante a ditadura.

“A televisão é uma concessão pública e por isso a necessidade de que ela andasse muito alinhada com o governo, porque, caso contrário, a concessão seria retirada”, analisa Beatriz Kushnir.

Álvaro de Moya lembra da perseguição aos veículos que se opuseram à linha editorial do governo. “O golpe militar acabou com a TV Excelsior e acabou com um grande capitalista brasileiro, Wallace Simonsen. Ele era a favor da democracia, ele era a favor do presidente da república ser democraticamente eleito.”

Para Anita Simis “os meios de comunicação são meios-chave em qualquer tentativa de mudança ou alternância no poder... Aqueles que querem dar um golpe tentam controlar a mídia”, afirma.


 
Apresentação: Lalo Leal
Produção: Aline Penna, Vitor Chambon e Patrícia Lima
Roteiro: Lumi Kihara
Direção: Pola Galé
 

quinta-feira, 27 de março de 2014

25 dos melhores livros sobre o golpe de 1964 e a ditadura civil militar que acabou em 1985

Para mais, click na imagem.

Cães de Guarda — Jornalistas e Censores, de Beatriz Kushnir


Há um livro que as redações de alguns jornais não podem resenhar — nem contra. “Cães de Guarda — Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988” (Boitempo, 408 páginas), da historiadora Beatriz Kushnir. A pesquisadora, num estudo alentado, mostra que, além de apoiar o golpe de 1964, a chamada grande imprensa coonestou os atos da ditadura. A relação com a censura foi bem menos tensa do que dizem alguns editores e donos de jornais e redes de televisão. Alguns veículos colaboraram, de boa vontade, com a ditadura civil-militar. O dono de uma revista teria enviado um profissional para treinar censores. Agora, quando todo mundo se apresenta “contra” o regime militar, o livro se tornou “maldito”.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Como seria nossa vida se o AI-5 estivesse em vigor?

http://noticias.uol.com.br/infograficos/2013/12/12/ai-5-completa-45-anos.htm

ESPECIAL: 45 anos depois, jornalistas relatam cenário pós-AI-5 na imprensa




Click e veja a matéria no site
Apropriando-se de elementos como poemas, receitas de bolos e desenhos de figuras diabólicas, os jornais e revistas enfileirados na esteira da máquina da censura esquivavam-se do governo e conseguiam, de certo modo, alertar os leitores sobre os temas proibidos nas publicações.
A violação da liberdade de expressão, direito essencial da democracia, atingiu em cheio a imprensa durante o regime militar no Brasil. A grande mídia se afinava ao governo, enquanto alternativos apontavam as torturas. Mas, a simbiose entre a atividade jornalística e o poder fez com que os veículos encontrassem recursos para conseguir driblar os censores.Os jornalistas aprenderam a narrar os fatos nas entrelinhas e o povo se adaptou a ler esses códigos, explica a jornalista e pós-doutora em comunicação Joana Puntel. "Escrevi uma matéria, bastante grande, denunciando uma instituição governamental sem usar nenhuma vez o nome da entidade. Então, aprendemos como dizer as coisas sem esconder a verdade, mas de uma forma que o povo nos entendesse ", acrescenta a profissional, que atuava na revista Família Cristã.

Farsa real

A Rainha Elizabeth II visitou o Brasil em 1968, acompanhada pelo príncipe Philip. A visita, que durou dez dias, de 1 a 10 de novembro, antecedeu o AI-5. Ela chegou em Recife, foi para Salvador e, de lá, seguiu para Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.

Na capital paulista, inaugurou o Museu de Arte de São Paulo (MASP). Segundo Rose Nogueira, que trabalhava na Folha da Tarde, aquela foi a última vez que os jornalistas noticiariam um grande evento com liberdade. “O que sabíamos na imprensa e, em todo lugar se falava, é que os militares estavam esperando a rainha ir embora para fazer o decreto. Foi o que aconteceu realmente.”

Memórias de uma guerra suja

No jornalismo desde os anos 1970, com passagem por grandes veículos de comunicação, Paulo Markun foi trabalhar na TV Cultura, onde conheceu Vladimir Herzog, então diretor de jornalismo da emissora. Os dois tinham ligação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), proibido pela ditadura, e logo foram presos e convocados a depor pelos agentes do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). Ele foi uma semana antes. Vlado em 24 de outubro de 1975 e, no dia seguinte, estava morto.

O jornalista conta que as prisões de 1975 apontavam o novo cenário político do país, que se deu pelo “golpe dentro do golpe”, instaurado pelo AI-5. “O que aconteceu de diferente no período da nossa prisão é que já havia alguma liberdade de imprensa e um governo, do Geisel, que era um pouco menos duro do que o ano anterior.”

O fato de Herzog ter se apresentado gerou uma indignação pública muito grande, segundo o jornalista. Somente com as mobilizações organizadas, como o culto ecumênico na catedral da Sé, a união das igrejas e de estudantes da USP, mudou a forma como a imprensa abordava a morte de Vlado.

“A imprensa, ainda naquela ocasião, não agiu de modo unânime em defesa dos presos e dos direitos humanos. Houve vários jornais que publicaram apenas a versão dos órgãos de segurança sobre a morte do Vlado, que era uma versão falsa, a de que ele teria se suicidado”, explica Markun.

A historia marcante dos jornalistas rendeu o livro "Meu Querido Vlado: A História de Vladimir Herzog e do Sonho de uma Geração", relato pessoal de quem sobreviveu aos porões da ditadura, baseado em lembranças e na pesquisa de documentos do Dops (Departamento de Ordem Política e Social).

Joana Puntel conta que, na época, foi escalada para acompanhar, junto com sua colega, a situação dos padres franceses na Guerrilha do Araguaia (PA), maior movimento armado contra a ditadura militar promovido pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ainda na ilegalidade.

“Atravessamos o Rio Araguaia com a chamada voadeira e, quando chegamos, os soldados já estavam lá, armados. Eles olhavam para gente, perguntavam para onde iríamos e o que iríamos fazer, como se estivéssemos fazendo algo errado”, conta. O destino era a casa paroquial, local onde iriam conversar com três líderes da comunidade. Após passar pela perseguição de soldados, as jornalistas conseguiram que os guerrilheiros contassem a realidade enfrentada pelo povo, o que incluía diversas prisões, torturas e mortes.

Joana diz que o outro desafio foi voltar para Araguaína, local onde iria enviar a matéria para a redação. “Coloquei as três folhas entre a calça e tentava andar de um modo que ninguém percebesse. Depois de atravessar o rio, o ônibus que deveria pegar atrasou 15 minutos, o que, para mim, durou uma eternidade. Não queria perder de jeito nenhum a matéria e a minha carteira de jornalista.”

A jornalista Olga Bardawil relembra a história de seu marido, o também jornalista José Carlos Bardawil, que sofria de câncer na medula e morreu em janeiro de 1997. O profissional acompanhou diversos acontecimentos políticos do país e fez parte da primeira turma da revista Veja.

No período, ele também foi alvo dos censores. Bardawil produzia uma reportagem sobre o decreto do Ato em Brasília, mas teve de levar a foto e escrever a reportagem em São Paulo, sede da publicação.

A fotografia, feita anteriormente, estampava Costa e Silva sentado no Congresso vazio. A imagem foi a escolhida por Mino Carta, então diretor da revista, para ser a capa da publicação. Com receio de ser barrado pelos censores, Bardawil escondeu a imagem dentro de sua camisa e pegou um ônibus para o Rio de Janeiro, de lá, foi para a capital paulista.

Até chegar na metrópole, passou por duas barreiras policiais na estrada, mas conseguiu salvar a imagem. A publicação, entretanto, celebrada pela redação, foi censurada como outras edições. "Depois a censura se instalou na revista", explica Olga. Mais tarde, as matérias que não saíram emVeja foram reunidas e publicadas no livro "Os Sobreviventes", lançado em 1977 pelo Senado Federal.

Cenário atual

A historiadora Beatriz Kushnir defendeu uma tese de doutorado na Unicamp em 2001, publicada em 2004, que tenta demonstrar que a ditadura e o golpe receberam apoio da sociedade civil — além de parte da grande imprensa. “O que vai acontecer após o AI-5 são várias limpas dentro das redações e, aí, você terá vários veículos alternativos”, afirma.

“Mas, basicamente, essa ideia de resistência por parte da imprensa tento relativizar, já que parte da grande imprensa deu apoio ao golpe. Isso não quer dizer que não tenham existido momentos de resistência', comenta.

Ela explica que muitos veículos distorciam ou omitiam fatos para não serem censurados. “A autocensura é uma prática nas redações”, enfatiza. Para ela, ainda é possível observar isso em veículos hoje em dia. “Quem estava muito interessado em entender o que aconteceu no Brasil durante as passeatas de junho, não leu os grandes jornais, leu os jornais on-line. Porque se lesse a grande imprensa, não entenderia o que estava acontecendo.”

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves


 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

“Foi uma opção”

A imprensa brasileira sempre me surpreendendo de forma negativa. Minha tese de doutorado foi defendida em 2001. O livro, fruto da tese, foi publicado em 2004 e reeditado em 2012, e o jornalista diz que "A historiadora Beatriz Kushnir (...) está enfiando a mão num vespeiro"...
Aqui aproveito para pedir desculpas a quem foi hoje ao Painel sobre Imprensa e não me encontrou para apresentar a palestra. Por problemas de logística, a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva" infelizmente, não conseguiu me levar a SP. Fica para uma próxima!


Beatriz Kushnir (...) afirma que veículos  se organizaram para conviver com os censores. 

“Foi uma opção”



    A historiadora Beatriz Kushnir (...) está enfiando a mão num vespeiro. Amparada em pesquisa nos arquivos públicos, entrevistas e tendo os próprios jornais e revistas como fontes, ela afirma que, além de não se insurgir contra a censura, a chamada grande imprensa adaptou-se convenientemente às exigências do regime militar e, em alguns casos, de requintes escabrosos, ainda colaborou com os órgãos de repressão.
    “Não houve resistência. Os veículos adotaram a autocensura e se organizaram para conviver com os censores dentro das redações. Foi uma opção”, diz a historiadora. No painel que apresentará nesta quinta-feira à Comissão da Verdade de São Paulo (“A imprensa que colaborou com a ditadura”), Kushnir pretende derrubar alguns mitos na relação entre a imprensa e a ditadura. Um deles é o de que alguns jornais, como o Estado de S. Paulo, publicaram receitas de bolo, poemas ou versos de Camões para resistir, driblando os censores e avisando leitores sobre reportagens proibidas.


    Reprodução
    Correio da manhã pedindo a saída de Jango
    “Ninguém estampou uma tarja no vazio ou deixou o espaço em branco para avisar que estava sob censura”, afirma a historiadora, autora de uma alentada pesquisa sobre o tema, condensada no livro “Cães de Guarda – jornalistas e censores, do AI-5 a Constituição de 1988”, em que mostra certa simbiose entre a atividade jornalística e a censura.
    Os profissionais que se especializaram no uso do lápis vermelho e da tesoura para enviar às redações os famosos bilhetinhos da censura (“por ordem superior, fica proibido...”), segundo ela, eram recrutados, predominantemente, no meio jornalístico, embora muitos também tivessem formação em direito, letras e psicologia – requisitos necessários no perfil exigido pelo governo.
    Os dez primeiros censores recrutados pelo Ministério da Justiça no regime militar, segundo ela, eram jornalistas. A historiadora diz que sem o consentimento dos donos de veículos de comunicação – alguns chegaram a mandar funcionários a Brasília para se adequar ao que o regime queria – e a concordância dos diretores de redação da época seria impossível controlar a imprensa. “Os censores eram, no máximo, 200. Como dar conta do país inteiro com esse número?”, observa a historiadora.
    Em linha com o entendimento adotado pela Comissão Nacional da Verdade, Beatriz Kushnir diz que é um equívoco tratar a derrubada do ex-presidente João Goulart como um golpe militar. “Foi civil-militar. A sociedade apoiou. Jornais como o Correio da Manhã pediram, em editoriais, a destituição do presidente da República na véspera do golpe”, lembra a historiadora. Os demais jornais também conspiraram a favor do golpe.
    O Correio da Manhã foi um dos primeiros a fazer oposição ao regime e acabou fechado em 1970. Os outros veículos, todos eles dominados por famílias no eixo Rio-São Paulo, esboçaram alguma reação apenas a partir do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 1968, que aprofundaria a ditadura, com estado de sítio, censura explícita e repressão ferrenha aos militantes da esquerda armada. Segundo a historiadora, a colaboração ou a autocensura na imprensa refletiu o apoio da sociedade ao golpe.
    As observações mais contundentes são reservadas ao Grupo Folha, cujo dono, Otávio Frias de Oliveira, já falecido, teria deixado que os caminhões de distribuição de jornais fossem usados como espaço de infiltração de agentes da repressão e autorizado que a presença de policiais no comando de um dos veículos, a extinta Folha da Tarde.
    Ela afirma que Frias e outros empresários – como Sebastião Camargo, da Construtora Camargo Corrêa – se tornaram alvos da esquerda armada pela suposta colaboração ao regime militar, mas as ações acabaram não se concretizando. Todos eles adotaram esquema de segurança depois do assassinato do empresário Henning Albert Boilesen, que também teria colaborado com os órgãos de repressão.
    O então diretor da Folha da Tarde, Antônio Aggio, diz a historiadora, usou uma metralhadora durante os 16 anos em que comandou a redação, entre 1969 e 1984, e transformou o jornal numa espécie de porta-voz dos órgãos de repressão do regime. Os demais dirigentes da redação eram todos egressos dos órgãos militares ou da polícia paulista.

    Cães no OperaMundi

      Relações perigosas: a Folha de São Paulo e a ditadura brasileira Antes de se apresentar como um dos símbolos da redemocratização, jornal m...