domingo, 24 de junho de 2018

Para a Revista Fórum: Na ditadura, quem combatia a censura era a imprensa alternativa; hoje é a blogosfera

A censura nasceu junto com a imprensa. E, ao longo dos anos, a busca por superar as armadilhas impostas por ela sempre norteou o comportamento dos jornalistas comprometidos com a verdade. Entretanto, em determinados períodos da história, a censura recrudesceu. No Brasil, durante o período do regime militar, de 1964 a 1985, ela encontrou abrigo e, ao mesmo tempo, resistência. Beatriz Kushnir, mestre e doutora em História Social, escreveu Cães de Guarda: Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988, livro considerado até hoje como referência quando se fala no tema. Ela revela à Fórum uma parte dos bastidores da censura à imprensa e avalia como ela atua hoje, diante da mudança de perfil dos veículos de comunicação.
Fórum – Em linhas gerais, como funcionou a censura à imprensa no Brasil durante a ditadura?
Beatriz Kushnir  A censura à imprensa no pós-64 atuou a partir de uma agência chamada Sigab [Serviço de Informação do Gabinete], que estava diretamente vinculada ao gabinete do ministro da Justiça. Eram censores da Polícia Federal, que foram transferidos para esse serviço e que, diariamente, ligavam para os jornais para dizer: “De ordem superior fica proibido…”. Eram os chamados bilhetinhos da censura. Muitas vezes os jornalistas sabiam o que estava acontecendo a partir desses telefonemas. Isso tudo foi feito depois do AI-5. Mas, na noite de 13 de dezembro de 1968, a maior parte das grandes redações passou a receber pessoas do Exército para fazer censura. Os veículos também receberam uma lista do que estava proibido e permitido liberar. Era um número muito reduzido de censores. Então, como esse número reduzido fazia censura à imprensa, ao teatro, à música, ao cinema? É porque se trabalhou com a ideia de autocensura. Como dizia Cláudio Abramo [um dos maiores jornalistas brasileiros], o jornal tem um dono e sai o que o dono quer. Vamos lembrar também que a lei de censura prévia é de 1970, mas, como eu mostro no meu livro, encontrei um documento do Sette Câmara [José Sette Câmara, então diretor do Jornal do Brasil] endereçado ao Alberto Dines [também um dos jornalistas mais reconhecidos do país], de antes da censura prévia, no qual o Sette Câmara dizia como agir dentro do Jornal do Brasil. A censura era feita dessa maneira, introjetando nas redações o que era proibido e o que era permitido.
Fórum – Seu livro Cães de Guarda: Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988 pode ser considerado incômodo para a mídia brasileira, pois expõe detalhes sobre os bastidores de jornais e emissoras de TV durante o regime militar?
Beatriz Kushnir – Meu livro se tornou incômodo porque vai no contrafluxo do que a historiografia e os relatos dos jornalistas contemporâneos à época tinham como afirmação, que a imprensa resistiu ao golpe de 1964. Não é verdade. A grande imprensa colaborou com o golpe e com todo o processo da ditadura. Quem foi, efetivamente, contra foi a imprensa alternativa. É por isso que houve a limpa nas redações, principalmente depois que o Golbery [Golbery do Couto e Silva, general e homem influente nos governos militares] chegou ao poder. Todos aqueles jornalistas que incomodavam eram demitidos e se formou uma grande massa de imprensa alternativa no país, que seria o que a gente considera hoje os blogs. É importante notar que quando eu digo que a grande imprensa colaborou, você tem um ou outro espasmo de resistência. Mas isso não é a tônica geral. Por exemplo, a Veja foi censurada logo nos primeiros números, mas depois continuou passando. Quando o Golbery entrou e começou a censurar mais fortemente a Veja, o Mino Carta [jornalista, escritor e editor de inúmeros veículos, hoje da CartaCapital] criou um personagem chamado Falcon, em “homenagem” ao então ministro da Justiça Armando Falcão. A brincadeira do Falcon durou cinco números, porque o leitor sabia que a Veja estava sendo censurada e isso ocorreu até o Mino ser demitido. Outra coisa importante que deve ser lembrada é que se fala muito da resistência do Estadão, de ter publicado trechos de Camões e receitas de bolo. O Oliveiros Ferreira [ex-diretor do Estado de S. Paulo] me concedeu uma entrevista, na época de minha pesquisa de tese, e ele contou que as pessoas ligavam para a redação e diziam assim: ‘Olha, aquela receita de bolo da primeira página tem alguma coisa errada, porque o bolo está solando’. Ou seja, se era uma forma de avisar ao leitor que o jornal está sob censura, não emplacou.
Fórum – Pode relembrar algumas histórias dessa época relacionada à censura?
Beatriz Kushnir – Nos arquivos, eu encontrei cartas do chefe da Polícia Federal, Moacyr Coelho, para o Civita [dono da Editora Abril], agradecendo o envio de um funcionário, porque esse funcionário mandou uma carta, dizendo que o cinema não estava sendo bem censurado e que ele queria ensinar aos censores como censurar. Lá, também, você pode encontrar uma série de cartas das Senhoras de Santana de São Paulo [grupo que defendia a censura] também reclamando ao ministro que a televisão estava muito liberada, pedindo uma coisa mais rigorosa. Lembrando que o Brasil é um país conservador e autoritário, em sua maioria, que a nossa República foi um golpe militar e que se tem muito mais momentos de exceção do que de democracia na sociedade brasileira, que os valores democráticos de nossa sociedade são muito frágeis, visto o que acontecem em 2016 e agora, que tudo está ruindo tão rapidamente. Então, a população solicitava do governo ações fortes de censura. Isso faz a gente pensar que a sociedade brasileira encara os governos como pais protetores, quase como aquela ideia sebastianista de que vai vir alguém e salvar você do mal. Essa é a sociedade daquela época e também de agora. A gente repara que isso está introjetado no brasileiro. A TV Globo, por exemplo, contratou censores aposentados para fazer uma autocensura dos roteiros e, assim, evitar ter algum problema. No fundo, não há resistência, há uma ideia de colaboração, ou seja, como ter menos prejuízos ao aderir ao sistema. Tem também o caso da Folha da Tarde. Em 1967, a Folha de S. Paulo, revitalizou esse jornal, que havia terminado em 1959, para fazer oposição ao Jornal da Tarde, do Grupo Estado, que estava cobrindo manifestações de estudantes, entre 1967 e 1968. Quando ocorreu o assassinato do Marighella, toda a redação caiu, porque tinha vínculos com a ALN [Aliança Libertadora Nacional – organização revolucionária]. Quem assumiu a redação foi o jornalista, que veio de Santos, Antônio Aggio, que também era funcionário da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Mais tarde, depois de se aposentar da Folha, ele foi assessor de imprensa do Romeu Tuma, que tinha ligações com o Dops. Então, a maior parte da redação era de policiais. Relatos dizem que o próprio Antônio Aggio ia com uma carabina para a redação. A Folha da Tarde imprimia o relato oficial da tortura. Quando as pessoas eram mortas nas casas de tortura, saía uma nota oficial, informando que a morte tinha sido em decorrência de um tiroteio na rua ou de um atropelamento na fuga da polícia. O jornal noticiava a versão oficial como sendo verdadeira. Por exemplo, se você procurar na Folha da Tarde, a missa de sétimo dia do Herzog [Vladimir Herzog, jornalista assassinado sob tortura nos porões da ditadura], não vai encontrar.
Fórum – Qual a importância da imprensa alternativa no processo de resistência à ditadura e, mais especificamente, à censura?
Beatriz Kushnir – A imprensa alternativa é uma forma de resistência, a partir da limpa nas redações. O Pasquim, por exemplo, sofreu uma forte censura. Eu entrevistei censoras que agiram no Pasquim. Tinha uma matéria de jornal que eu localizei, onde o Ziraldo contava que tinha ido para Roma e mandou um cartão postal para as censoras, dizendo: ‘Estou mandando Davi [escultura de Michelangelo] de costas, porque de frente vocês censuram’. Quando eu contei essa história lá nos anos 90, a censora abriu a gaveta, tirou o postal e falou: ‘Éramos nós’. Muitas delas recontavam suas histórias nos anos 90, querendo dizer que entraram para a censura para fazer resistência. E não é verdade. Elas estavam querendo recontar seu passado. A imprensa alternativa também sofreu muito quando o Pasquim fez uma matéria sobre racismo e as censoras deixaram passar, porque o pessoal do jornal descobriu que uma das censoras gostava de whisky. Então, eles davam whisky e ela deixava as matérias passar. Também teve o caso do pai da Helô Pinheiro, a garota de Ipanema, que era o chefe da censura no Rio e atendia na praia. Os jornalistas do Pasquim iam lá conversar. O próprio general Antônio Bandeira, que era o diretor da Polícia Federal e uma pessoa envolvida diretamente com a tortura no Araguaia, veio ao Rio de Janeiro para explicar ao Pasquim que não existia racismo no Brasil. Ele começou a censurar o Pasquim de Brasília, o que quebrava o jornal. Eu encontrei um documento no Arquivo Nacional do Rio do desenho de uma mão pedindo “help”, que era o Ziraldo pedindo arrego ao ministro para diminuir a censura. O que acaba acontecendo é que, quando houve uma certa flexibilização no número 300 do Pasquim e os censores dizendo que a partir dali a responsabilidade era deles, em 1975, o Millor Fernandes escreveu um editorial lindo, que se chama “Sem censura não quer dizer sem responsabilidade”. Ele disse que o tempo todo, com censura ou não, o que saía impresso era de responsabilidade daquela redação. O jornal foi novamente censurado, apreendido, o Pasquim rachou e o Millor saiu.
Fórum – Nos dias atuais, a imprensa está mudando de perfil. Você acredita que a censura também vai mudar a forma de agir?
Beatriz Kushnir – A censura, por mais que tenha uma cara, um discurso de moral e bom costume, é sempre política e sempre vai agir com a questão econômica. A gente não pode esquecer que quando os governos do mundo inteiro estão em situação apertada eles liberam verbas de publicidade para a imprensa. A censura sempre vai ser econômica, pois se eu fechar esse patrocínio eu posso quebrar aquele meio de comunicação. Então, se um veículo não consegue se manter por si ou por colaboração dos seus leitores, vai estar sempre na mão dos governos e à mercê do que os governos querem ver publicado.
Fórum – Quais os riscos da censura nos veículos digitais de imprensa?
Beatriz Kushnir – Esse mundo digital é uma terra de ninguém. Por isso, é muito difícil a gente checar se a notícia é falsa ou não, porque primeiro ela é publicada e se espalha rapidamente. A questão econômica é sempre muito forte, porque vai definir se o veículo vai conseguir ficar no ar. Vamos lembrar, por exemplo, de 2014, quando a Folha de S. Paulo publicou uma suposta ficha do Dops da Dilma Rousseff, que estaria no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Era uma ficha falsa, uma coisa muito fácil de checar, pois estava no Arquivo. Deu uma grande confusão, difícil de desfazer. Então, pela complexidade do mundo atual, com essa rapidez que as notícias se espalham no mundo digital, é muito difícil fazer qualquer controle, para o bem e para o mal. Quando você tem a possibilidade de noticiar algo que realmente está acontecendo, é ótimo. A gente tem acesso a muitas informações, mas vive num mundo que, por termos muitas informações, fazemos poucas sinapses, temos muitos dados, mas não sintetizamos. Então, acho muito difícil, eu sempre acho o poder econômico, infelizmente, ainda define as coisas.
Fórum – Em sua opinião, as agências contratadas para, supostamente, fiscalizar e combater fake news nas redes sociais podem agir como censores?
Beatriz Kushnir – Checar se uma informação é falsa ou verdadeira, eu não acho que seja um ato de censura. Se alguém escreveu alguma coisa e você quer checar se é verdadeiro ou falso, acho legítimo. Você querer desmontar a propagação de uma ideia falsa é legítimo, é uma obrigação. Censura, para mim, é quando você impede que uma pessoa chegue a uma determinada informação.
Fórum – Sobre o recente caso no qual uma empresa contratada pelo Facebook (Agência Lupa) acusou blogs progressistas de divulgar fake news, quando, na verdade, a notícia era verdadeira. Você não acha que existe uma questão ideológica embutida aí, que pode representar um risco para a liberdade de imprensa?
Beatriz Kushnir – Sim, mas no mundo, sempre vai ter esse embate ideológico, onde as pessoas vão querer construir narrativas. Então, sempre existirá a informação e a contrainformação. Não tem como a gente ser purista e achar sempre que isso não vai acontecer. É o jogo. Enfim, a gente tem que ter as nossas armas para desmontar as armadilhas do outro lado. Não tem como a gente achar que vai ter um mundo sebastianista de alguém que vai lá de cima dizer o que pode e o que não pode. São os embates políticos, as disputas. Infelizmente, faz parte. Mas que bom que a gente ainda tem liberdade de dizer não, provar que isso é verdadeiro. O ruim daquele momento de censura é você não ter espaços e, por isso, a imprensa alternativa era tão importante, para dizer: ‘Olha, o que esses caras estão noticiando não é verdade’. Os meios de comunicação vendem um serviço que é público. Eles vendem uma informação, que se torna uma mercadoria e isso é uma disputa. É a arena política. Não tem como a gente achar que isso não vai acontecer sempre.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O 4o Poder

O jornalista Paulo Henrique Amorim lança uma compilação de histórias centradas na sua carreira de jornalista, e se debruça na relação imprensa X governo.
Ao refletir sobre a censura no pós-1964, cita o Cães...



















quarta-feira, 1 de julho de 2015

O amor da mídia aos delatores vem de longe

http://www.ocafezinho.com/2015/07/01/o-amor-da-midia-aos-delatores-vem-de-longe/





A Folha chegou a emprestar seus furgões para que a polícia política transportasse os presos que seriam torturados. Torturados, é bom lembrar, para que se transformassem em delatores.
O espírito autoritário do Estado sempre se revela assim: na tentativa de transformar cidadãos em desprezíveis delatores. É o acontece em todos os fascismos, inclusive nos regimes fascistas de esquerda, como nos tempos mais sombrios da União Soviética e da Alemanha Oriental.
E agora, o fascismo judicial, com apoio histérico da mídia, quer novamente transformar delações arrancadas de maneira ilegal, vazadas de forma ilegal, e distorcidas na imprensa de forma ilegal, na principal prova de acusação. O que importa é produzir a condenação política e midiática. O resto vem na sequência.
Os juízes das instâncias superiores depois são intimidados. Se não chancelam o arbítrio, são massacrados nas grandes mídias.

***

‘Folha’ ama delatores desde a ditadura









Por Altamiro Borges, em seu blog
quarta-feira, 1 de julho de 2015

O jornal “Folha de S.Paulo” – o mesmo que ajudou a criar o clima fascista para o golpe de 1964 e que apoiou os setores mais truculentos da ditadura militar, com suas torturas e assassinatos – não gostou das respostas de Dilma Rousseff durante sua visita aos EUA. Perguntada sobre a midiática Operação Lava-Jato – com suas “delações premiadas” e premeditadas, seus vazamentos seletivos e suas prisões e métodos ilegais de obter confissões -, a presidenta foi enfática: “Eu não respeito delator, até porque estive presa na ditadura militar e sei o que é. Tentaram me transformar numa delatora. A ditadura fazia isso com as pessoas presas e garanto a vocês que resisti bravamente”.
Um dia depois, nesta terça-feira (30), durante entrevista coletiva na Casa Branca e ao lado de Barack Obama, a presidenta voltou a ser questionada sobre a Operação Lava-Jato e novamente condenou a forma como as investigações são conduzidas. “Isso é um tanto quanto Idade Média… O governo brasileiro não tem acesso aos autos. E, estranhamente, há um vazamento seletivo e alguns têm acesso. Aqueles que são mencionados não têm como se defender porque não sabem do que são acusados”. As respostas desagradaram a famiglia Frias e seus serviçais. Em editorial nesta quarta-feira, intitulado “Lógica torturada”, a Folha esbraveja:
“Ao dizer que não respeita delator, Dilma demonstra incoerência, mistura ditadura com democracia e ataca mecanismo processual… Antipatizar com delatores é uma questão pessoal, mas Dilma Rousseff, na condição de presidente da República, tem o dever legal de respeitar um instituto admitido pela legislação brasileira – a norma mais recente sobre o tema, aliás, foi sancionada pela própria petista em 2013… Embora advogados de envolvidos na Operação Lava Jato apontem abusos nas prisões, não se tem notícia de violência física ou supressão do direito de defesa. Não se confundem com ruptura institucional os eventuais exageros processuais”.
Na sua seletividade, a famiglia Frias nem sempre apoia os ‘delatores’. O doleiro Alberto Youssef, por exemplo, já dedurou o tucano Aécio Neves nas suas “delações premiadas” da Lava-Jato, revelando que ele recebia “mesada” da empresa Furnas. As graves denúncias contra o cambaleante, porém, não tiveram qualquer destaque nas páginas da Folha. O próprio Ricardo Pessoa, dono da UCT, que agora é manchete diária na mídia tucana, também acusou o senador Aloysio Nunes, vice na chapa de Aécio Neves nas eleições do ano passado. Neste caso, as denúncias do “delator” também sumiram do jornal.
A Folha somente apoia os “delatores” que servem aos seus propósitos políticos. Esta seletividade é bem antiga. No período mais sombrio da ditadura militar, o jornal utilizou depoimentos extraídos na tortura para atacar os patriotas que lutavam pela volta da democracia no Brasil. A historiadora Beatriz Kushnir, no imperdível livro “Cães de guarda: jornalistas e censores do AI-5 à Constituição de 1988″, apresenta vários documentos que comprovam a postura fascista da famiglia Frias. Ela sempre seguiu a “lógica dos torturadores” – no passado e no presente.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A emoção de ler no Relatório da Comissão Nacional da Verdade, a citação a minha tese de doutorado!


CNV chancela versão de que a Folha emprestou carros para a ditadura

Em relatório, Comissão da Verdade referenda estudo segundo a qual o apoio do jornal ao golpe não foi apenas financeiro e ideológico, mas também material
por Redação — publicado 10/12/2014 16:26

Três caminhonetes da Folha foram queimadas por militantes de esquerda em 1971. Eles acusavam o Grupo Folha de colaborar com a ditadura

O relatório final da Comissão Nacional da Verdade chancela a versão de que o Grupo Folha, dono do jornal Folha de S.Paulo, deu não apenas apoio financeiro e ideológico ao golpe de 1964, mas apoio material à repressão contra os opositores da ditadura, com o fornecimento de veículos para a Operação Bandeirante, a Oban, um centro de investigações do Exército que combatia as organizações de esquerda.
Em texto a respeito da colaboração de civis com o regime, elaborado por 11 pesquisadores do grupo de trabalho sobre o Estado Ditatorial-Militar, a CNV cita o livro Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988, resultado da tese de doutorado da pesquisadora Beatriz Kushnir. Na página 320, o texto cita diversos grupos empresariais que colaboraram com a Oban, entre eles o Folha, e também a pesquisa de Kushnir, que "constatou a presença ativa do Grupo Folha no apoio à Oban, seja no apoio editorial explícito no noticiário do jornal Folha da Tarde, seja no uso de caminhonetes da Folha para o cerco e a captura de opositores do regime".
A pesquisa de Kushnir vai ao encontro de depoimentos de ex-militantes da esquerda, como o do jornalista Alípio Freire e do coordenador da Comissão da Verdade de São Paulo, Ivan Seixas. Preso aos 16 anos e torturado ao lado do pai, Joaquim Seixas, que morreu nas dependências do DOI-Codi de São Paulo, Ivan Seixas afirmou em diversas oportunidades ter visto carros da Folha usados por agentes da repressão.
Há outros relatos como o de Seixas, mas a Folha, que em editorial de 30 de março deste ano afirmou que o apoio ao golpe foi "ao olhos de hoje, um erro", jamais admitiu o empréstimo dos veículos. Em 19 de fevereiro de 2011, em texto a respeito dos 90 anos do jornal, constava a informação de que "a direção da Folha sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins".

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domingo, 9 de novembro de 2014

Momento desabafo

http://nucleopiratininga.org.br/
Na última 5a feira, dia 6/11/2014, fui ao Centro Cultural da Caixa, no Rio, falar numa mesa sobre os apoios ao Golpe de 1964. Depois de algumas mudanças, a mesa foi composta por mim, por um professor da Comunicação (que diz que é uma Ditadura Militar, mas não se explica bem) e um historiador (que sustenta uma ditadura empresarial-militar). 

Assista parte da palestra clicando no ícone acima
Os que me conhecem e/ou leram os meus trabalhos sabem que pontuo a ditadura como civil-militar. Afastadas as diferenças de termos e conceitos, que podem, eu sinceramente acredito,  auxiliar ao debate e ao campo, o que me espantou muito foram duas constatações:

  1. O conceito sendo usado para dividir o campo pelas diferenças entre estes e aqueles professores, e teses sendo orientadas para legitimar "verdades" e demarcar estas diferenças, e
  2. A diminuta vontade de se discutir os conceitos, já que o que estava em jogo era demonstrar a "corrente partidária" que o trabalho se filiou. 


Envelheci, cansei, queria brincar de coisas mais sérias!

terça-feira, 8 de abril de 2014

É falso sugerir que ditadura foi uma criação apenas dos militares

Click e leia no site do Jornal Opção 

Vamos combinar assim: ninguém apoiou a ditadura, talvez nem os militares, e, deste modo, tudo fica muito bem. Todos ficam felizes e o Brasil varonil segue adiante, às vezes deitado em berço esplêndido — isto se o berço não for assaltado. No Bananão, como Ivan Lessa chamava o país de Paulo Maluf e José Sarney, rouba-se até a história. Nos jornais, ao menos em alguns deles, fica-se com a impressão de que (quase) todos combateram o regime civil-militar. Mais: há uma tentativa — solerte, diriam os conservadores — de se retirar o elemento civil e, portanto, a ditadura seria apenas “militar”. Historiadores gabaritados, como Daniel Aarão Reis Filho e Carlos Fico, para citar apenas dois, preferem o uso de golpe civil-militar e ditadura civil-militar. Porque, admitem, o golpe e a ditadura foram civis e militares.[Não é bem assim, para o Daniel é ditadura civil-militar e para o Fico é ditadura militar].
Civis e militares se irmanaram para derrubar o presidente João Goulart e sabiam — ninguém, no meio político, tem o direito de ser ingênuo — que se caminhava para uma ditadura. Um livro clássico, “1964: A Conquista do Estado — Ação Política, Poder e Golpe de Classe” (Vozes, 814 páginas, tradução de Ayeska Branca, Ceres Ribeiro, Else Ribeiro e Glória de Mello), do doutor uruguaio René Armand Dreifuss, documentou, com rigor, a articulação civil e militar, numa conexão irrestrita, para depor Jango. Pode-se dizer, até, que foram os civis que “agenciaram” o golpe que os militares levaram a termo.
A vivandeira-mor Carlos Lacerda, um dos políticos mais nefastos da história brasileira e um golpista nato — porta-voz da “república da citação”, da cultura bacharelesca, filosoficamente inconsistente, quando filtrada —, conspirou abertamente contra a democracia desde o governo do presidente Getúlio Vargas. Lacerda escrevia de olho nos leitores privilegiados dos quartéis, especialmente coronéis e generais, e com o objetivo de derrubar algum presidente constitucionalmente eleito. Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, conspirava contra o governo de Jango até quando dormia e sonhava. Frequentava os quarteis, como vivandeira-banqueiro, sempre pedindo a mesma coisa: a derrubada do presidente da República. Até políticos mais equilibrados, como Bilac Pinto, beiravam os quartéis, adulando militares graduados. Na ponta da língua sempre o mesmo pedido, quase exigência: “Deem-nos um golpe!” Até civis americanos, como o embaixador Lincoln Gordon, comportavam-se como vivandeiras. “Um golpe, por favor!”, pedia Gordon, com o apoio de John Kennedy e, depois, de Lyndon Johnson, o sucessor.
Os militares escutavam e, claro, conspiravam animadamente — casos dos generais Castello Branco, Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, a dita Sorbonne, com o apoio de outros generais, como Luiz Carlos Guedes, Olympio Mourão Filho (o Vaca Fardada) e Odílio Denys. Entretanto, sem as vivandeiras, como Lacerda e Magalhães, teriam tentado o golpe sozinhos? Talvez sim. Talvez não. Mais provável que não. Os civis, como Lacerda, de certa maneira deram consistência e, ao mesmo tempo, justificativa para o golpe de 64. Com sua pena ferina, uma mistura de romantismo, parnasianismo e realismo rastaquera, Lacerda contribuiu para que a sociedade quisesse, apoiasse e aceitasse o golpe. O governador da Guanabara e articulista de jornal — talvez nunca tenha sido jornalista, pois parecia não acreditar na exposição e, sim, na fabricação do fato — tornou a ideia do golpe palatável. Lacerda era, em 1964, uma espécie de oxigênio da classe média moralista e conservadora. Era sua voz histérica e histriônica.
Se Lacerda era o lodo da imprensa, pregando o golpe militar como se fosse uma “obra” de saneamento básico contra a corrupção, alguns jornais, como “O Estado de S. Paulo”, “O Globo” e a “Folha de S. Paulo”, torciam abertamente pela queda de Jango. Torciam é pouco. Pediam, até exigiam, que os militares arrancassem o presidente do Palácio do Planalto. “Basta!” — dizia o poderoso “Correio da Manhã” em editoriais escritos por jornalistas e escritores do naipe de Carlos Heitor Cony Otto Maria Carpeaux. “Fora!” — gritavam outros jornais. Se um psiquiatra examinar os principais jornais patropis, notadamente entre janeiro e abril de 1964, certamente vai diagnosticar certa histeria aguda travestida de crítica. Mas uma histeria, digamos, pragmática.
Uma acadêmica do balacobaco, Beatriz Kushnir, não teve receio algum de expor as entranhas e patranhas da imprensa sob a ditadura. “Cães de Guarda — Jornalistas e Censores do AI-5 à Constituição de 1988” (Boitempo Editorial, 408 páginas), escrito pela doutora em história social pela prestigiosa Universidade de Campinas (Unicamp), entrou para o índex de alguns jornais. Não há nenhuma determinação escrita do tipo: “Este livro não pode ser resenhado”. Mas os jornalistas sabem que não é de bom tom nem mesmo dizer que o livro foi escrito e publicado. É um livro para ser esquecido. Sobretudo agora, quando a “Folha de S. Paulo” e “O Globo” garantem que erraram ao apoiar o golpe e a ditadura, não fica bem ler e comentar este livro maldito.
Há um certo folclore quando se trata do comportamento da imprensa na ditadura, há, até, uma memória heróica, muito bem construída, para sugerir que houve uma luta ferrenha contra as ações brutais da ditadura. Não custa lembrar o que o general Ernesto Geisel, o presidente que acabou com a censura e o AI-5, revelou: “Recebi no palácio todos os donos de órgãos de comunicação. Nenhum me pediu o fim da censura”. A imprensa mais apoiou do que combateu a ditadura. A economia do país crescia, “milagrosamente”, e os jornais cresciam junto. Havia, portanto, uma identidade sólida entre a ditadura e os grupos de comunicação. Fica-se com a impressão que, com suas receitas de bolo, o “Estadão” foi uma grande rebelde. Não foi. A rebeldia da “Veja” era menor do que costumam sugerir alguns de seus ex-editores. “O Globo” e a Rede Globo de Televisão eram quase porta-vozes do regime.
O grupo Folha da Manhã apoiava a ditadura com seus dois jornais, a “Folha de S. Paulo” e a “Folha da Tarde”. A “Folha de S. Paulo” parece dividir sua história em a.d. e d.d., ou seja, antes da Diretas Já e depois das Diretas Já, esquecendo, não inteiramente, parte de seus passado pouco lisonjeiro. A “Folha da Tarde”, durante certo momento, teve sua redação controlada por jornalistas-policiais ou policiais-jornalistas. Chegaram a chamá-la de “Diário Oficial da Oban”. A “FT” publicava reportagens distorcidas sobre as mortes de militantes da esquerda.
O leitor por certo lembra-se do bordão “Vai que é sua, Taffarel!”, do locutor esportivo Galvão Bueno. Sobre a ditadura, pode-se dizer que os civis estão querendo passar a bola exclusivamente para os militares — “Pega que é sua, general!” Mas a ditadura patropi foi mesmo civil-militar, num colaboracionismo que durou 21 anos. O planejamento econômico (além da política fazendária) foi todo elaborado por “gênios” civis como Roberto Campos, Delfim Netto e Mario Henrique Simonsen. Nesse campo, o trio pintava e bordava. O arcabouço institucional — a elaboração jurídica — formulado pelo governo foi criado e implementado por civis, não raro contidos pelos militares, que avaliavam seus projetos como excessivamente reacionários. Aos poucos, estudiosos sérios, como Carlos Fico, Daniel Aarão Reis Filho, Denise Rollemberg, Elio Gaspari, Jorge Ferreira, Marco Antônio Villa,[não colocaria este autor neste grupo] vão mostrando o imbricamento visceral entre civis e militares tanto no golpe de 64 quanto na ditadura.

Se os acadêmicos começam a mostrar como os civis foram influentes na ditadura, e não com o objetivo de retirar o caráter militar do regime, e sim de ampliar o entendimento de como funcionava, há os que preferem reforçar o aspecto militarista da ditadura com o objetivo óbvio de piorar sua imagem. “Arrancar” os civis, posicionando a ditadura quase que exclusivamente como militar, é uma forma de sugerir que foi mais cruenta. Acadêmicos, como Denise Rollemberg, Daniel Aarão Reis e Marco Antônio Villa,[não colocaria este autor neste grupo] começam a mostrar que o projeto da esquerda, de parte dela, nada tinha de democrático. Direita e esquerda irmanavam-se: as duas queriam o golpe, de diferentes modos, mas nenhuma era de fato democrática. Elas “namoravam” a ditadura.
A ditadura, se depender de certos nichos, alguns encastelados nos jornais, vai se tornar cada vez mais militar e menos civil-militar. Trata-se de uma contrafação. O golpe e a ditadura são tanto dos civis quanto dos militares. 

Para a Revista Fórum: Na ditadura, quem combatia a censura era a imprensa alternativa; hoje é a blogosfera

Por Lucas Vasques     A censura nasceu junto com a imprensa. E, ao longo dos anos, a busca por superar as armadilhas impostas por ...