quinta-feira, 17 de maio de 2007

Golpe militar de 1964, Guy de Almeida

Neste artigo, o autor traça um panorama informativo sobre o comportamento da imprensa brasileira durante os 20 anos de regime militar, sinalizando também as mudanças que, ao longo desse período, delinearam um novo perfil para o setor de comunicação. O autor põe ainda um foco sobre a imprensa mineira, refazendo a sua trajetória em alguns momentos desses anos de chumbo. [...] Em Cães de Guarda: Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988, Beatriz Kushnir, doutora em História Social do Trabalho pela Unicamp, viria a apresentar documento interno do Jornal do Brasil, de dezembro de 1969, que instituíra um controle de qualidade sob o ponto de vista político, considerando que o exercício da liberdade de expressão tem que ser pautado pelo bom senso e pela prudência.
O jornal definira-se então como não sendo de situação, nem de oposição, lutando pela restauração da plenitude do regime democrático no Brasil, pelo retorno ao estado de direito, mas sem correr os riscos inúteis do desafio quixotesco ao governo. Entre as instruções, optar pela suspensão de qualquer notícia que possa representar um risco para o jornal, pois para bem cumprirmos o nosso maior dever, que é retratar a verdade, é preciso, antes de mais nada, sobreviver.
Em uma avaliação na passagem dos 30 anos de edição do AI-5, o jornalista Jânio de Freitas consideraria que a imprensa, embora uma ou outra dissidência, mais do que aceitou o regime: foi uma arma essencial da ditadura, acentuando que, naqueles tempos e desde 64, o Jornal do Brasil fora o grande propagandista das políticas do regime, das figuras marcantes do regime, dos êxitos verdadeiros ou falsos do regime.
Consideração de Kushnir facilita o entendimento do título de seu livro: esses jornalistas colaboracionistas são aqui vistos como cães de guarda. À soleira, montaram guarda e fizeram autocensura no governo Médici e mesmo antes dele, colaborando para construir e difundir uma imagem irreal, inverídica do País. E seguiram o fluxo quando o tabuleiro do poder mudou a disposição das peças.
Para além da autocensura, o caso mais singular de colaboração com o regime de exceção parece ter sido o da Folha da Tarde, do grupo Folhas de S. Paulo. Relançado em 1967, aquele jornal manter-se-ia até parte de 1969 em linha inusitada para a época, tendo como membros da redação vários militantes de grupos clandestinos da resistência de esquerda ao regime, que, inclusive, chegariam a utilizar essa condição para as suas atividades políticas. Alguns meses após a edição do AI-5, concluir-se-ia essa etapa e o jornal passaria para o outro pólo, sob nova direção que o transformaria no jornal mais sórdido do País, segundo Cláudio Abramo, que fora diretor de redação da Folha de S. Paulo. Ademais do duro tratamento informativo aos movimentos armados contrários ao regime ditatorial, o jornal seria acusado de cessão de carros da empresa aos órgãos de repressão (DOI-CODI).
Esse disfarce possibilitaria, na compreensão dos militantes, que a polícia montasse emboscadas prendendo ativistas. Alguns desses carros seriam incendiados em represália, por movimentos de esquerda, em 1971.

2 comentários:

Anônimo disse...

Aprendi muito

Wellington Oliveira disse...

O tema da ditadura civil-militar implantado no país nesse período, sempre me interessou. Agora, após a leitura do livro da Drª Beatriz, o assunto ganhou mais importância e me deu uma nova visão quanto ao uso da cultura de massa para propagandear e/ou omitir os atos dos militares no governo. Ótimo livro!