domingo, 18 de março de 2007

Nova versão das relações entre jornalistas e a censura

Pesquisadora denuncia o apoio à repressão durante a ditadura
Paula Barcellos, JB 20/3/04

Quando defendeu sua tese de doutorado em História, na Unicamp, em 2001, a atual coordenadora da rede municipal de teatros do Rio, Beatriz Kushnir, despertou a curiosidade, a fúria e os aplausos de muitos jornalistas que estavam em plena atividade durante o regime militar. Com o título Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 - agora publicado pela Boitempo (408 páginas, sem preço definido) -, Beatriz trouxe à tona uma face do jornalismo, que na maioria das vezes costuma ser mascarada: sua colaboração com o Estado nos anos de repressão. Para chegar a essa constatação, a historiadora inverteu a estratégia do jogo: em vez de partir dos jornalistas para chegar aos censores, foi aos censores para chegar aos jornalistas. Daí, surgiu uma surpresa: os primeiros 10 censores do Departamento de Censura de Diversões Públicas, no período estudado por Beatriz, eram jornalistas.
- O objetivo é iluminar um território sombrio e desconfortável: a existência de jornalistas que, ainda nas redações, foram censores federais e policiais - conta.
Um dos entrevistados para a pesquisa foi o jornalista Antônio Aggio Jr., que, no período da censura, trabalhava na Folha da Tarde . Apesar de, a princípio, Aggio ajudar Beatriz em sua tese, ele não poupou críticas ao ler o trabalho pronto: ''Para alicerçar sua tese na parte relativa à Folha da Tarde, Beatriz vale-se de um argumento mentiroso e calunioso. Estou providenciando sua responsabilização perante a justiça'', disparou em seu artigo publicado no site do Observatório da Imprensa.. Polêmicas a parte, a historiadora Beatriz Kushnir, com sua ousada publicação, está contribuindo para uma releitura crítica dos 40 anos do golpe militar.

- Ao contrário da maioria dos estudos sobre a imprensa durante a ditadura militar, em que o enfoque é a forma pela qual os jornalistas reagiram à censura, na sua tese você faz o caminho inverso: parte dos censores para chegar aos jornalistas. O que levou a essa opção?

- Ao iniciar minhas pesquisas de doutoramento em História, na Unicamp, financiada pela Fapesp, fiquei surpresa ao constatar que os primeiros 10 censores do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP), quando da transferência da capital federal para Brasília, eram jornalistas. E todo pesquisador sabe que um ''achado'' ocorre quando uma constatação foge às regras que havíamos apreendido como ''conhecidas''. Mas tal ''descoberta'', como outras que o livro aponta, não são facilmente assimiláveis por uma memória política que estabeleceu para o país um outro patamar, muitas vezes distante do percorrido pelo regime civil-militar do pós-1964, por exemplo. Tentando compreender esse achado, verifiquei que os editais dos concursos públicos para censor federal, quando traçavam o perfil do candidato, admitiam uma única atividade concomitante: ser jornalista. Esse fato aguçou ainda mais a minha curiosidade. Até porque, creio ser importante, em um trabalho na área das Ciências Sociais, podermos remar contra a maré e trazermos à tona ponderações e perspectivas inovadoras, olhares que revelem, desvendem. Esses nos obrigam a rearrumar o tabuleiro do jogo. E isso, para mim, é fundamental.

- Como você explica o fato de alguns profissionais da imprensa colaborarem com a repressão?

- É preciso compreender, por um lado, a instabilidade profissional dos homens e mulheres de jornal e a necessidade que tinham de outros empregos, muitas vezes públicos, que garantir a sobrevivência. Estar no aparelho de Estado ou ser empregado num jornal, uma empresa, confere regras, e isso é uma constatação que não pode ser desprezada. A República brasileira é também um período de longas intervenções ditatoriais. Temos mais momentos de exceção do que de democracia. A censura aos jornais, portanto, não se iniciou no pós-1964, ou no pós-1968. Ela esteve presente na República Velha, no Estado Novo e também em períodos tidos como democráticos. Gosto muito de uma frase do Millôr, no famoso número 300 do Pasquim, quando os censores deixam a redação. Ele diz: ''Sem censura não quer dizer com liberdade''. Quantos de nós fomos educados para viver ''com liberdade''?

- Como tal colaboração com a ditadura refletiu na sociedade?
- O ato de colaborar com a ditadura nos impõe refletir, criticamente, a idéia da sociedade brasileira como ''democrática por natureza'', e para tal são muito oportunas as ponderações feitas por Daniel Aarão Reis Filho acerca do processo de anistia e de oposição ao regime civil-militar. Durante esse período, meio ''fim de festa'', parcelas da sociedade brasileira buscaram se divorciar da ditadura, optando por manifestações tidas como de esquerda. Desejavam demarcar as ''fundas e autênticas raízes históricas'' do país. Para eles, a ditadura era um passado e um pesadelo momentâneo, que precisava ser exorcizado. Como demônios e fenômenos externos, a idéia era que a sociedade não tinha, e nunca teve, nada a ver com a ditadura. Ficam, então, questões difíceis de responder: por que a ditadura durou tanto tempo e não foi simplesmente repudiada? E por que foi aprovada uma anistia recíproca?

- Você se decepcionou com a imprensa?

- Não sei se decepção é o termo mais correto. Creio que hoje compreendo que a imprensa é uma empresa de cunho privado que vende um serviço de utilidade pública. Mas, como destacou Cláudio Abramo, o jornal tem um dono e nele só sai o que o patrão quer. Tendo isso em mente, passa-se a ler, de forma mais realista, o que está impresso. Sabendo sempre que, no dia seguinte, o papel do jornal vai embrulhar peixe nas feiras. Mas o que nele está impresso pode ter mudado vidas de modo radical. Algo é fundamental não se perder: quem o compra deposita neste ato um pacto de confiabilidade no que está escrito. Quebrar esse acordo gera uma ambigüidade na apreensão do real que permite um sem-número de considerações. Assim, muitos pagaram pelo papel-jornal para saberem o que se passava nos seus mundos. Outros sofreram com o que estava impresso nessas páginas.

- Dessa forma, o jornalismo acaba sendo fonte da história. Então, como se dá a relação entre imprensa e história, jornalista e historiador?

- Os historiadores que vêm trabalhando com o contemporâneo fazem o que se denominou ''história do tempo presente''. No encontro de jornalistas e outros intelectuais para uma atuação política, abriu-se um espaço que flexibilizou lugares e atuações profissionais. Não se contentando em registrar apenas os ecos da atualidade, os jornalistas buscaram um olhar crítico sobre o material produzido, exercitando-se em uma história do imediato. Esse encontro, esperamos, deve se dar para além das disputas, respeitando as especificidades de cada oficio. Assim, não devemos cair na armadilha que amarra o historiador às considerações para a posteridade, enquanto o jornalista buscaria vencer a angústia do esquecimento a cada jornal que no dia seguinte está no lixo. O grande encontro possível desses sujeitos das letras permite que o tempo presente seja uma não-história do instante. E nada mais importante do que a narrativa jornalística e a reflexão histórica sobre um período, por diversos ângulos, para que isto possa acontecer.

- Logo após a defesa da sua tese, em 2001, parte da imprensa reagiu muito mal, inclusive jornalistas que você entrevistou para o trabalho. Antônio Aggio Jr. chegou a afirmar que sua tese seria mentirosa e sensacionalista. Como justifica essa reação?

- Durante as reflexões sobre os 30 anos do AI-5, em 1998, o jornalista Jânio de Freitas fez uma análise, em meu juízo, extremamente reveladora, comentando que muitos dos jornalistas que estavam nas redações em 1968 ainda lá permaneciam em 1998. Assim, como o panorama mudou, discursos sobre trajetórias também querem se adaptar a esses ''novos momentos''. Isto porque muitos servidores foram aposentados, outros construíram para si uma imagem positiva e até mesmo heróica, distanciando-se do que haviam feito. Outros tantos se readaptaram e estão na mídia como sempre. Um retrato que exponha e desfoque esse esforço de adaptação nunca poderá ser bem aceito.
- De certa maneira, reações como a de Aggio não seriam também uma forma de censura?
- Sinceramente, prefiro não polemizar. Meu trabalho se pretende muito mais amplo do que se debruçar apenas sobre trajetórias individuais. Não quero que um esforço de cinco anos e meio, extremamente rico para mim, seja perdido e apague o empenho de repensar as outras possibilidades de apreender a relação imprensa/Estado.

- Passados 40 anos do golpe militar, como você analisa a imprensa hoje? Ainda persiste algum tipo de censura?

- A censura, travestida de defesa da moral e dos bons costumes, é para mim sempre política, e se calca, para efetivar suas ações, em pressões econômicas. Por ser uma empresa privada que visa o lucro, o órgão de imprensa tende a perder suas funções básicas: fiscalizar o poder, buscar a verdade dos fatos e fomentar o espírito crítico. Atualmente, temos acesso a muita informação, às vezes em excesso e sem proveito, mas adquirir conhecimento é parte de outro procedimento. Talvez a censura contemporânea seja essa enxurrada de dados e a ausência de conteúdo. [http://www.jb.com.br/jb/papel/cadernos/ideias/2004/03/19/joride20040319005.html ]

3 comentários:

Jorge Magalhães disse...

Caríssima Baia, acabo de tomar conhecimento do teu Blog, no Pletz. Imediatamente, corri para ele.Trabalho maravilhoso e impar.Valeu um grande abraço.

Jorge Magalhães disse...

Perdão saiu seu nome errado..Bia

Jorge disse...

Seja bem-vinda à blogosfera.
abs
Jorge